Cotidiano
ÓRFÃOS E LONGE DE CASA: após mais de 2 anos sob custódia nos EUA, irmãos de 11 e 5 anos finalmente retornam a Mato Grosso
Mãe morreu aos 33 anos em Massachusetts; crianças ficaram acolhidas pelo sistema de proteção norte-americano enquanto tia travava uma longa batalha jurídica e burocrática para conseguir trazê-las ao Brasil
Foram mais de dois anos de distância, incerteza e uma batalha que atravessou fronteiras. Dois irmãos brasileiros, atualmente com 11 e 5 anos, finalmente retornaram a Mato Grosso nesta sexta-feira (7), depois de permanecerem sob a custódia do sistema de proteção à infância dos Estados Unidos desde a morte da mãe, ocorrida em abril de 2024.
O desembarque encerra o capítulo mais angustiante de uma história marcada por morte, separação familiar, entraves burocráticos e três tentativas frustradas de retorno ao Brasil.
As crianças viviam com a mãe em Salem, no estado de Massachusetts, quando a brasileira morreu aos apenas 33 anos.
Diante da ausência de familiares próximos nos Estados Unidos que pudessem assumir imediatamente os cuidados dos irmãos, eles foram encaminhados ao Department of Children and Families (DCF), órgão responsável pela proteção à infância naquele estado de Massachusetts, quando a brasileira morreu aos apenas 33 anos.
A partir daquele momento começou uma verdadeira corrida contra o tempo do outro lado do continente.
No Brasil, uma tia materna, moradora de Juruena, a cerca de 880 quilômetros de Cuiabá, decidiu lutar para reunir novamente a família.
Em junho de 2024, ela procurou a Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPEMT) e pediu a guarda dos sobrinhos. Uma das preocupações apresentadas durante o caso era impedir que, diante da inexistência de familiar responsável nos Estados Unidos, as crianças eventualmente fossem encaminhadas para um processo de adoção naquele país.
Malas prontas e frustração
O que poderia parecer uma simples viagem de retorno transformou-se em uma complexa operação jurídica internacional.
Segundo a defensora pública Natane Garcia Ferreira, responsável pelo caso em sua etapa final, a família chegou a se preparar três vezes para receber as crianças.
Nas três ocasiões, porém, novos entraves impediram a concretização da viagem.
“Em alguns momentos, parecia que cada etapa vencida dava lugar a um novo obstáculo”, relatou a defensora.
Enquanto os irmãos permaneciam nos Estados Unidos, uma verdadeira força-tarefa passou a trabalhar para destravar o retorno.
A articulação envolveu a Defensoria Pública de Mato Grosso, a Defensoria Pública da União (DPU), o Ministério das Relações Exteriores, órgãos federais brasileiros, o Consulado-Geral do Brasil em Boston, o Poder Judiciário e autoridades norte-americanas.
Não bastava comprar passagens e colocar as crianças em um avião.
Era necessário compatibilizar dois sistemas jurídicos, decisões judiciais, documentação migratória, regras de proteção à infância e garantias de que os irmãos teriam estrutura adequada para viver no Brasil.
Casa da tia passou por avaliação
Antes de autorizar a reunificação familiar, equipes ligadas ao serviço de proteção norte-americano avaliaram as condições oferecidas pela família em Mato Grosso.
Foram analisados aspectos como a residência da tia, estrutura familiar, vínculos afetivos e rede de apoio disponível aos irmãos.
O resultado foi favorável à reunificação.
Em maio de 2025, a Corte Juvenil de Massachusetts adotou as medidas relativas aos direitos e deveres parentais necessárias ao prosseguimento do caso. Posteriormente, avançaram os procedimentos para permitir que as crianças deixassem legalmente os Estados Unidos.
Mas ainda faltava uma peça fundamental no Brasil: a formalização judicial da guarda da tia.
Em abril deste ano, após atuação da Defensoria Pública, a Justiça brasileira concedeu a guarda unilateral provisória dos irmãos à tia materna, permitindo que o processo internacional finalmente avançasse para sua etapa decisiva.
De volta ao Brasil
Com a documentação regularizada e as autorizações judiciais concedidas, autoridades norte-americanas organizaram o deslocamento, inclusive com passagens aéreas e acompanhamento profissional durante a viagem.
O reencontro aconteceu no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo.
Depois de mais de dois anos separados fisicamente, tia e sobrinhos finalmente puderam se abraçar em território brasileiro.
De Guarulhos, a família seguiu para Cuiabá. O destino definitivo dos irmãos é Juruena, onde passarão a viver junto aos parentes maternos.
Durante o longo período em que estiveram separados, crianças e tia procuraram preservar o vínculo familiar por meio de chamadas de vídeo.
Agora, as telas dão lugar à convivência diária.
Uma família reunida
A chegada ao Brasil não apaga o trauma enfrentado pelos irmãos.
Eles perderam a mãe ainda crianças, permaneceram durante mais de dois anos longe da família brasileira e atravessaram um complexo procedimento envolvendo autoridades de dois países até que a reunificação se tornasse possível.
O próprio corpo da mãe somente conseguiu ser trasladado ao Brasil meses depois de sua morte, após mobilização da família para arrecadar recursos.
Para a defensora Natane Garcia Ferreira, acompanhar o reencontro representou a conclusão da fase mais delicada de uma atuação que ultrapassou fronteiras.
“Ver o reencontro dessas crianças com a tia e saber que elas finalmente puderam voltar para casa é uma sensação de enorme satisfação”, afirmou.
A batalha judicial, contudo, ainda não terminou completamente.
O processo para definição da guarda definitiva continua tramitando perante a Justiça de Mato Grosso.
A diferença é que, desta vez, os dois irmãos não aguardam o próximo capítulo a milhares de quilômetros de distância.
Depois de mais de dois anos sob os cuidados do sistema de proteção norte-americano, eles estão novamente no Brasil e junto da família materna.