Mundo
Chile vai às urnas para escolher novo presidente neste domingo; entenda cenário
Pesquisas eleitorais mais recentes apontam para disputa direta entre José Antonio Kast, da extrema-direita, e esquerdista Gabriel Boric
21/11/2021
A polarização no Chile
Para o analista Internacional da CNN Lourival Sant’Anna, o aspecto mais importante dessa disputa no Chile é a polarização. “A polarização é algo recente na política chilena”, diz. Ele relembra que o atual presidente Sebastián Piñera, quando eleito para seu primeiro mandato em 2010, foi o presidente mais à direita a ser eleito desde a redemocratização chilena. “No segundo mandato, Piñera foi eleito já com uma agenda mais de centro, mas a polarização estava se fermentando”, afirma. “Sempre houve candidatos e grupos de extrema-esquerda e de extrema-direita no Chile, mas é a primeira vez que eles tem uma chance real de chegar ao poder.” O analista da CNN explica que dois fatores levaram à radicalização da política chilena: a ausência de uma previdência pública no país, “que levou a um empobrecimento das pessoas”. E o fato de não existir ensino superior gratuito no Chile, “porque mesmo nas universidades públicas é cobrada uma anuidade dos estudantes”. “Foi criado um sistema de crédito educacional que deixou muitas pessoas de classe média e baixa endividadas ao se formar na universidade, o que gerou uma grande ansiedade nos jovens chilenos”, declara Sant’Anna. Uma pesquisa do Instituto Nacional da Juventude (Injuv) indicou que o índice de comparecimento às urnas entre jovens chilenos deve chegar à 77%. Entre os principais pontos a serem considerados nos programas de governo dos candidatos estão “Emprego e economia” e “Educação”.
Reflexos políticos no Brasil
O professor e coordenador do curso de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Felipe Loureiro, afirma em entrevista à CNN que as eleições chilenas são “muito importantes” para o Brasil. Isso porque, segundo ele, uma possível instabilidade em nossos vizinhos pode refletir no país, sobretudo com uma vitória de Boric. “Eu penso que o cenário seria muito semelhante ao que esta se desenvolvendo na Bolívia e no Peru, cuja eleições foram vencidas por candidatos de esquerda. Isso leva um enfraquecimento entre as relações bilaterais entre o Brasil de Bolsonaro e esses países. No caso do Chile tem um agravante, porque Bolsonaro se aproximou bastante de Piñera, desde 2019.” Loureiro relembra a saída do Chile da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), criada em 2008 como um projeto progressista de 12 países, impulsionado pelo falecido presidente venezuelano Hugo Chávez e apoiado por outros líderes do continente da época, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador) e o já também falecido Néstor Kirchner (Argentina). “Foi criado um fórum paralelo, o Fórum para o Progresso e Desenvolvimento da América do Sul (Prosul). Uma vitória do Boric enfraqueceria esse órgão, que não é tão forte, mas um projeto de regionalismo de direita, centro-direita ate a extrema-direita latino-americana, que já esta bastante enfraquecida, mas certamente acabaria perdendo proeminência”, avalia.
Impacto simbólico e relação com bolsonarismo
O professor adjunto de Política Internacional na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Paulo Velasco, acredita que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) “torce para uma vitória” do candidato da extrema-direita José Antonio Kast, o que ele chamou de “Bolsonaro chileno”. Velasco avalia que não haveria um aprofundamento das relações do Brasil e Chile em uma eventual vitória de Gabriel Boric em dezembro. No entanto, ele aponta para um futuro incerto no Brasil, podendo, inclusive, gerar atritos futuros dependendo do candidato que vença o pleito em 2022, sobretudo se Bolsonaro não conseguir a releição. “Futuramente pode haver atritos dependendo do cenário político no Brasil, mas como são relações que não se prendem em político partidário, não imagino grande prejuízo”, pondera. Carlos Gustavo Poggio, PhD em Relações Internacionais pela Georgetown University, diz que hoje no Chile há uma “tendência clara de força” da categoria política que ele classificou como “populista de direita, da linha Bolsonaro”. “Claramente conseguimos isso na figura de Kast”. O também professor de Relações Internacionais na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) alerta que uma vitória da direita seria uma “sinalização que a sociedade latino-americana ainda compra o discurso populista de direita”. “A força eleitoral que Kast tem demonstrado até agora já indica essa tendencia. Isso em um contexto de revisão da Constituição chilena. Se havia uma certa esperança de setores progressistas no Brasil, uma eleição de um populista de direita iria cancelar qualquer tipo de esperanças de uma transformação ou uma guinada mais à esquerda do Chile. Acho que tem um impacto psicológico e simbólico que merece ser acompanhado”, diz.Mais lidas
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