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Putin e Biden fazem aposta de alto risco na Ucrânia
Entenda como a Ucrânia ficou presa no jogo de provocações entre os EUA e a Rússia, em que nenhum dos lados tem muito a ganhar, sob a ameaça de uma guerra na Europa
19/01/2022
Invasão real
Tanto os críticos como os admiradores da Rússia concordam quando veem todas as ações do Kremlin como intencionais e ardilosas. Mas esse nível de concordância é raro. Depois de invadir a península da Crimeia em 2014, a Rússia ficou sem um corredor terrestre ligando-a à pátria russa. Só em 2018 os russos concluíram uma ponte fina sobre o estreito de Kerch para abastecimentos e serviços públicos. A invasão de facto da disputada região de Donbas terminou em 2015, mas a Rússia ainda sustenta ali um movimento separatista caótico e confuso. A montanha de mercenários e foras-da-lei tem um custo, com pouco benefício: é improvável que Moscou consiga lucrar com a área, já que Donbas não é o polo industrial que foi no passado. As alegações de que o Kremlin precisa de uma ponte terrestre para a Crimeia e de um status definitivo para Donbas são muitas vezes o centro do argumento para uma terceira invasão à Ucrânia em oito anos. Mas a maioria das opções militares teria um custo imenso. No mínimo, a ação russa poderia envolver “normalizar” o aperto do país na região de Donbas, enviando tropas russas para bloquear o controle na área, ou mesmo para alargar ligeiramente a sua zona tampão contra o resto da Ucrânia. Há possíveis benefícios, mas, ao mesmo tempo, a ação provavelmente desencadearia sanções dispendiosas e formalizaria a cara posição do governo russo como patrocinador da região afetada.
Risco de sanções
A ideia de ocupar uma grande área da Ucrânia pode ter parecido possível em 2014. Mas, depois de sete anos de guerra, a Ucrânia está visivelmente aquém da nostalgia do seu antigo vizinho soviético. Uma ocupação seria sangrenta, custaria muitas vidas russas, exigiria centenas de milhares de militares russos, e seria provavelmente uma lembrança embaraçosa ao Kremlin, com suas forças se esticando ao máximo – forças que eram decrépitas há pouco mais de uma década, antes da sua rápida modernização. As sanções também prejudicariam, ou até destruíram, as partes da economia russa que lidam com a Europa. Mesmo uma pequena invasão é realmente uma má ideia para Moscou. Os defensores da probabilidade de uma invasão sempre lembram que Putin não é um agente racional, e sim alguém sujeito a movimentos radicais imprevisíveis. Eles observam que, como um autocrata envelhecido, sem quaisquer controles ou pesos e contrapesos reais para se preocupar, ele é livre para decidir qualquer coisa, a qualquer hora. A tomada de decisão do chefe do Kremlin há muito tempo tem sido nebulosa de propósito. E, após 21 anos no comando e quase dois anos numa bolha de isolamento por causa da Covid-19, com as interações significativamente limitadas, Putin deve estar recebendo informações muito longe de serem equilibradas. É por isso que a decisão do governo Biden de amplificar a probabilidade de uma invasão é tão arriscada.Soar o alarme
Há sinais claros de advertência – e possivelmente dados de inteligência não revelados ainda mais fortes – para apoiar a possibilidade de um ataque. Talvez garantir que os seus aliados estejam conscientes e prontos para isso seja melhor do que ficar calado e parecer despreparado. Mas, ao soar o alarme de forma tão alta, a Casa Branca deu a Putin uma escolha: aja agora, ou então vai parecer que você cedeu à pressão do ocidente. Alguém imagina que o líder russo, que acredita que o seu país foi humilhado de forma retumbante no fim da União Soviética, tomaria a segunda decisão?EUA e Rússia têm histórico de encontros entre seus líderes; veja fotos
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1 de 10Os presidentes Joe Biden, dos Estados Unidos, e Vladimir Putin, da Rússia, se encontraram em 16 de junho, em Genebra, na Suíça Crédito: Mikhail Svetlov/Getty Images -
2 de 10O presidente americano Barack Obama e o presidente da Rússia Dmitry Medvedev durante evento sobre segurança nuclear na Coreia do Sul, em 2012 Crédito: Sasha Mordovets/Getty Images -
3 de 10O presidente americano Bill Clinton ri de piada de Boris Yeltsin durante evento em Nova York, em 1995 Crédito: Wally McNamee/CORBIS/Corbis via Getty Images -
4 de 10Na Casa Branca, o líder soviético Mikhail Gorbachev e o presidente americano George HW Bush, em 1990 Crédito: Ron Sachs/CNP/Getty Images -
5 de 10O presidente americano Ronald Reagan e o líder soviético Mikhail Gobachev, em Genebra, em 1985 Crédito: David Hume Kennerly/Getty Images -
6 de 10O presidente dos EUA Gerald Ford e o premiê soviético Leonid Brezhnev, no Encontro de Vladvostok, em 1974 Crédito: David Hume Kennerly/Getty Images -
7 de 10Brinde entre o líder soviético Leonid Brezhnev e o presidente americano Richard Nixon, em 1973 Crédito: Bettmann/Getty Images -
8 de 10O líder soviétivo Alexei Kosygin e o presidente dos EUA, Lyndon Johnson, jantando juntos, em 1967 Crédito: Bettmann/Getty Images -
9 de 10Winston Churchill, do Reino Unido, o presidente americano Franklin Roosevelt e o líder soviético Joseph Stalin, durante a Conferência de Yalta, em 1945 Crédito: Bettmann/Getty Images -
10 de 10O líder soviético Joseph Stalin e o presidente americano Harry Truman, durante a Conferência de Potsdam, em 1945 Crédito: Library of Congress/Corbis/VCG via Getty Images
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