Política
Descontente com Bolsonaro, cúpula militar volta a se articular em torno de Mourão
Vice-presidente, ministros e comandante do Exército se queixam que se tornaram motivo de chacota após declaração do presidente que insinuava um conflito contra os EUA. Acostumado a ver teorias da conspiração por todos os lados, o presidente volta a mirar
Aliados de Bolsonaro desde a época da campanha eleitoral, os militares têm notado um franco descrédito das Forças Armadas e pretendem assegurar o que resta de confiança junto à população. Por esta razão, mesmo com o presidente desautorizando Mourão a falar em seu nome, o vice-presidente seguiu concedendo entrevistas. Na mais recente, à rádio Gaúcha, disse que seu sentimento pessoal era de que a vitória de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos “está cada vez mais sendo irreversível”. Bolsonaro é um dos poucos líderes mundiais que não reconheceram ainda a derrota de seu ídolo Donald Trump. Na mesma ocasião, Mourão endossou o que o general Pujol havia dito no dia anterior. “Não admitimos política nos quartéis”.
Pujol é um general discreto. Pouco fala publicamente. Ficou marcado por fazê-lo no início da pandemia, quando contrariou Bolsonaro e disse que o coronavírus era, sim, uma preocupação dos militares. Nesta semana, ele deu duas declarações que chamaram a atenção. Ambas em debates públicos. Na quinta-feira, durante um evento do Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa, Pujol afirmou que “militares não querem fazer parte da política nem querem que a política entre nos quartéis”.
Na sexta-feira, em um seminário sobre Defesa Nacional, das Forças Armadas, Pujol repetiu algo que deveria ser óbvio: que a instituição pertence ao Estado, não ao Governo. “Não somos instituição de governo, não temos partido. Nosso partido é o Brasil. Independente de mudanças ou permanências em determinado governo por um período longo, as Forças Armadas cuidam do país, da nação. Elas são instituições de Estado, permanentes. Não mudamos a cada quatro anos a nossa maneira de pensar e como cumprir nossas missões."
Se não bastassem os discursos públicos, Ramos, um contemporâneo que Bolsonaro escolheu para fazer a articulação política de seu Governo, traçou uma linha demonstrando o quanto de interferência admitirá em seu trabalho. Na semana passada ele comandava uma reunião com alguns ministros quando o primogênito do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) entrou na sala, no Palácio do Planalto, sem ser convidado. Ramos pediu para ele se retirar. O parlamentar disse que era um senador e participaria do encontro. Ao que o ministro respondeu que ali era o Executivo, o Legislativo era do outro lado da praça dos Três Poderes. Flávio deixou o local.
Bolsonaro, que costuma se vangloriar que tem o apoio dos militares, tem cada vez mais encontrado resistência entre seus antigos pares. Acostumado a ver teorias da conspiração por todos os lados, ele voltou a mirar seu vice-presidente, que tem construído pontes com o empresariado e com diplomatas estrangeiros. Se a eleição presidencial fosse hoje, uma certeza ele teria, seu vice, não seria Mourão. Esse desquite poderia servir de justificativa para os militares abandonar de vez o ex-capitão que trouxe os fardados de volta ao protagonismo político no Brasil.