Política

Bolsonaro faz discurso messiânico diante de Esplanada lotada e ameaça enquadrar o Supremo

Presidente disse que deve a Deus a condução do país e fala em “ultimato” . “Ou o chefe desse Poder enquadra o seu [ministro] ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos”

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM EL PAÍS 07/09/2021
Bolsonaro faz discurso messiânico diante de Esplanada lotada e ameaça enquadrar o Supremo
Foto: LUCAS FRANZONI

A Esplanada dos Ministérios lotou e o presidente Jair Bolsonaro garantiu a foto que tanto queria. Milhares de eleitores do mandatário se espremeram para vê-lo discursar e transformar o aniversário da independência do Brasil em um ato político bem sucedido a seu favor. São os tais 25% dos eleitores leais que tiraram o 7 de Setembro para vestir verde e amarelo e mostrar sua fidelidade irredutível ao presidente. “Jurei, como [o vice-presidente Hamilton] Mourão e [o ministro da Defesa] Braga Netto dar a vida pela pátria. E vocês darão a vida pela sua liberdade”, disse Bolsonaro num discurso messiânico que citou seu papel na presidência como uma missão divina. “Cheguei aqui pelas mãos de Deus e devo a Ele a condução desta nação”, afirmou ele, enquanto os seus apoiadores gritavam: “Moraes na cadeia!” e “eu autorizo”, este último brado em referência a uma autorização para intervir no Supremo.

O ataque à Corte Suprema foi direta com a clara intenção de atingir o ministro Alexandre de Moraes, mas com uma ameaça a toda a Corte. “Ou o chefe desse Poder [Luiz Fux] enquadra o seu [ministro] ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos”, disse ele em referência ao STF, discursando ao lado de alguns ministros, como Braga Netto e o ministro do Trabalho, Onyx Lorenzoni. Bolsonaro e seus seguidores estão sob pressão da Corte que atua nos inquéritos dos atos antidemocráticos, e fake news. Vários eleitores do presidente que ameaçaram, inclusive de morte, o ministro Alexandre de Moraes foram detidos nos últimos dias.

Diante de sua plateia, que inclui saudosos da ditadura e adeptos da ideia de fechar o Supremo, o presidente investiu num ato midiático, incluindo a chegada à Esplanada de rolls-royce dirigido pelo ex-piloto de Fórmula 1 Nelson Piquet. Ao chegar se posicionou ao lado de ministros para acompanhar as solenidades em homenagem ao 7 de Setembro. Antes, fez um rápido discurso em que falou: “Hoje, eu quero ser apenas o porta-voz de vocês, e dizer que o que estou falando a partir de agora é em nome de vocês, povo brasileiro”. A multidão de apoiadores, que chegou a Brasília ao longo desta segunda-feira, estava em êxtase. Alguns incidentes foram registrados, como fogos de artifícios que alguns bolsonaristas soltaram, em direção ao Ministério da Defesa, ou a tentativa de alguns bolsonaristas e avançar sobre o acampamento de indígenas instalado a alguns quilômetros da Esplanada.

Apesar do entusiasmo, Bolsonaro continua a falar com sua base mais leal e radical, num momento em que sua rejeição supera os 60%. Erros de gestão na pandemia, a inflação e a suspeitas de corrupção levantadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia desgastam a imagem do presidente para o resto do país. O presidente perdeu o apoio político de diversos partidos e do mercado financeiro, especialmente depois do resultado pífio do PIB na semana passada. Nesta terça, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, aproveitou a data para tuitar: “Ao tempo em que se celebra o Dia da Independência, expressão forte da liberdade nacional, não deixemos de compreender a nossa mais evidente dependência de algo que deve unir o Brasil: a absoluta defesa do Estado Democrático de Direito.”

Pacheco assinou um artigo no jornal o Estado de S. Paulo em que não deixa dúvidas sobre a sua posição sobre os atos do presidente. “As liberdades de expressão e de manifestação engrandecem uma sociedade (...) Mas é preciso que não se perca de vista a exata compreensão desses termos ao invocá-los, especialidade quando a ambiguidade de sua utilização possa vir a capturar a boa intenção de alguém a ponto de misturar valores cívicos com flertes de autoritarismo.”

Na mesma linha, o principal alvo das manifestações dos bolsonaristas, o ministro Alexandre de Moraes, publicou em seu perfil no Twitter: “Nesse Sete de Setembro, comemoramos nossa Independência, que garantiu nossa Liberdade e que somente se fortalece com absoluto respeito a Democracia”.