Política

Tarifas de Trump por causa da Groenlândia favorecem acordo Mercosul-UE

Escalada comercial com os Estados Unidos empurra Europa para novos parceiros, dizem especialistas

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM CNN 19/01/2026
Tarifas de Trump por causa da Groenlândia favorecem acordo Mercosul-UE
Ao usar tarifas como instrumento de pressão geopolítica, Washington empurra a Europa para uma lógica defensiva | Reprodução/Ipea

As tarifas adicionais anunciadas pelo presidente Donald Trump neste sábado (17) contra países europeus que se opõem à anexação da Groenlândia pelos Estados Unidos não só reacenderam as tensões comerciais globais, às vésperas do republicano completar um ano de seu 2º mandato na Casa Branca.

Esse movimento, claramente político, pode ter um efeito colateral relevante: aumentar o apoio ao acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE), justamente no momento em que o texto entra na fase mais sensível de aprovação no Parlamento Europeu.

Ao usar tarifas como instrumento de pressão geopolítica, Washington empurra a Europa para uma lógica defensiva. Parlamentares europeus já falam abertamente em rever ou até suspender o acordo comercial com os Estados Unidos, enquanto a Comissão Europeia prepara medidas de retaliação tarifária a partir de fevereiro, caso não haja recuo americano.

Nesse contexto, o acordo Mercosul-UE deixa de ser apenas uma negociação de longo prazo e passa a ser visto como alternativa estratégica concreta - principalmente se considerarmos que as novas tarifas anunciadas por Trump se somam às já existentes, elevando o custo de acesso dos produtos europeus ao mercado americano para níveis que podem chegar a 40% a partir de junho.

Isso tende a reduzir exportações, pressionar cadeias produtivas e afetar diretamente setores industriais e agrícolas da União Europeia.

Para o professor de Relações Internacionais da ESPM, Leonardo Trevisan, o vínculo entre a escalada tarifária e o fortalecimento do acordo com o Mercosul é direto.

“É impossível não associar uma coisa à outra. As tarifas de até 25% vão brecar a saída de produtos europeus para os Estados Unidos, e eles precisam de outros mercados. Nesse caso, o acordo Mercosul-UE ganha uma força inédita”, comentou.

Segundo ele, ao dificultar o acesso ao mercado americano, os EUA aceleram a busca europeia por parceiros alternativos, e a América Latina surge como destino natural.

“O episódio da Groenlândia, do jeito que está colocado, ajuda a uma aproximação da Europa com outros mercados, e a América Latina como um todo é candidata preferencial para essa escolha”, afirma Trevisan.

Mas, ao mesmo tempo em que cresce o interesse econômico por novos acordos, aumenta também a tensão política interna na Europa. Isso porque parte do Parlamento Europeu, especialmente deputados ligados ao setor agrícola francês, já tenta judicializar o acordo Mercosul-UE, levando o texto esta semana para análise da Corte de Justiça da União Europeia. Trevisan alerta, no entanto, que nem toda oposição tem motivação econômica.

“Há deputados muito radicalizados, de extrema direita, que defendem o fim do acordo com os Estados Unidos. É preciso cautela: isso tem pouco a ver com defender a Groenlândia e muito a ver com eleições”, analisa.

Ele lembra que a União Europeia exportou US$ 642 bilhões para os EUA no ano passado, sustentando empregos e crescimento em países-chave como Alemanha e França. Uma ruptura abrupta com Washington poderia gerar desemprego, o que, politicamente, favorece a extrema direita europeia.

“Quanto mais desemprego, mais voto na extrema direita. Não é de graça que esse grupo pressiona por uma crise maior”, afirma.

Na avaliação de Carlos Primo Braga, ex-diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial e professor associado da Fundação Dom Cabral, o ambiente geopolítico joga a favor do acordo com o Mercosul, mas não elimina os riscos institucionais.

“As medidas da administração Trump vão, de certa forma, criar apoio adicional para a aprovação do acordo Mercosul-UE, mas ainda temos pedregulhos no caminho”, destaca.

Ele lembra que a resistência histórica ao acordo sempre veio de países preocupados com o impacto no setor agrícola, como França e Polônia. Ainda assim, ajustes políticos recentes, como o apoio da Itália após a negociação de subsídios para agricultores, reduziram o risco de bloqueio por população mínima dentro da UE.

“Hoje, não há mais os 35% da população europeia necessários para bloquear o acordo”, explica.

O principal risco agora, como já mencionado, é o jurídico. A votação no Parlamento Europeu sobre o envio do acordo à Corte de Justiça da União Europeia está marcada para quarta-feira (21).

“Se isso for aprovado, podemos ter uma espera de 12 a 18 meses. Moral da história: o acordo deve avançar, mas o ritmo ainda é incerto”, diz Braga.

O fato é que o mais novo capítulo da tensão comercial gerada pelos Estados Unidos volta a acelerar a necessidade de uma mudança estrutural no comércio global. Países e blocos precisam buscar diversificação de parceiros, menos dependência de Washington e maior previsibilidade regulatória.

É por isso que, nesse cenário, o acordo Mercosul-UE ganha um novo significado: deixa de ser apenas uma oportunidade para um pacto comercial e passa a ser um necessário instrumento geopolítico de equilíbrio.

Para a Europa, é uma porta de acesso a mercados e recursos naturais em um momento de tensão com os EUA. Para o Brasil e o Mercosul, é a chance de se posicionar como alternativa confiável em um mundo mais fragmentado.

Pode até parecer ironia, mas ao usar tarifas como arma política, Trump pode acabar fortalecendo exatamente o acordo que vinha enfrentando mais resistência dentro da Europa.