Política
VEXAME NA TV: candidatos despreparados, “colinhas” e baixaria transformam debate em um dos piores de MT desde 1982
Sem presença diante das câmeras e praticamente sem propostas concretas, postulantes ao Governo trocaram acusações, recorreram a ataques pessoais e protagonizaram confusão nos bastidores
O primeiro debate entre os candidatos ao Governo de Mato Grosso terminou como um verdadeiro desastre político e televisivo. O encontro promovido pela TV Vila Real, afiliada da Record, nesta terça-feira (1º), deveria apresentar propostas e ajudar o eleitor a escolher quem está preparado para comandar o Estado. No entanto, entregou nervosismo, “colinhas”, ataques pessoais, acusações, choro, pedidos de direito de resposta e até denúncia de ameaça nos bastidores.
Na avaliação editorial do Página 12, o programa entrou para a história como um dos piores debates eleitorais realizados em Mato Grosso desde a retomada das eleições diretas para governador, em 1982.
Otaviano Pivetta (Republicanos), Wellington Fagundes (PL), Natasha Slhessarenko (PSD), Rafaell Millas (Missão), Maurício Coelho (Mobiliza) e Sargento Laudicério (Agir) demonstraram, em diferentes momentos, pouca preparação para aproveitar o espaço mais importante da campanha até agora.
Candidatos mal assessorados e sem presença de vídeo
O que ficou evidente foi a deficiência das equipes de comunicação e marketing. Os candidatos pareceram mal assessorados, inseguros e sem treinamento adequado para televisão. Faltaram postura, domínio do tempo, objetividade, clareza nas respostas e, principalmente, presença diante das câmeras.
Em vez de falarem diretamente ao eleitor, muitos se perderam em respostas longas, repetitivas ou desconectadas das perguntas. Houve excessiva dependência de anotações e “colinhas”, inclusive com orientações e papéis trocados durante os intervalos.
Debate eleitoral não é reunião de gabinete nem leitura de relatório. Exige preparo, espontaneidade, domínio dos problemas do Estado e capacidade de comunicar soluções. Nada disso apareceu de forma consistente na noite desta terça-feira.
A impressão transmitida foi a de que algumas candidaturas chegaram ao estúdio sem estratégia definida, sem frases de impacto, sem treinamento para enfrentar provocações e, pior, sem um conjunto de propostas claras para apresentar à população.
Propostas desapareceram do palco
Mato Grosso enfrenta problemas graves na saúde, segurança pública, educação, infraestrutura, habitação, funcionalismo e combate às facções criminosas. Apesar disso, o eleitor terminou o debate sem compreender claramente o que cada candidato pretende fazer para enfrentar essas questões.
As propostas foram engolidas pela troca de acusações.
Em vez de explicar como pretendem governar Mato Grosso, os candidatos preferiram vasculhar o passado dos adversários, levantar suspeitas, mencionar operações policiais, discutir antigas indicações ao DNIT e explorar episódios pessoais.
O debate que deveria ser sobre o futuro ficou aprisionado no passado.
Pivetta e Wellington transformam debate em ringue político
Os dois candidatos mais experientes, Otaviano Pivetta e Wellington Fagundes, protagonizaram uma guerra em torno do DNIT e de supostas responsabilidades políticas por irregularidades ocorridas no órgão.
Pivetta associou Wellington à velha política e às indicações feitas durante diferentes governos federais. Wellington reagiu citando Luiz Antônio Pagot, integrante da coordenação da campanha adversária, e rebatendo as acusações.
O confronto produziu barulho, mas pouca explicação concreta sobre o futuro das rodovias, a infraestrutura estadual e os investimentos necessários para Mato Grosso.
Quem esperava um choque de projetos assistiu a uma disputa para decidir quem carregava o aliado politicamente mais inconveniente.
Violência doméstica domina confronto contra Pivetta
Pivetta também foi pressionado por Natasha, Laudicério e, indiretamente, Wellington sobre uma antiga acusação de violência doméstica feita por sua ex-esposa. O governador demonstrou desconforto e preferiu destacar ações da gestão estadual.
É necessário registrar que Pivetta foi posteriormente inocentado e o processo acabou arquivado. Ainda assim, o episódio foi repetidamente explorado pelos adversários durante o confronto.
Mais uma vez, o debate abandonou as propostas e mergulhou em acusações pessoais.
Wellington cercado por operações e suspeitas
Wellington Fagundes também foi colocado contra a parede. Rafaell Millas mencionou operações policiais e tentou associar o senador a antigos escândalos. Wellington negou ter sido investigado ou condenado e afirmou ser ficha limpa.
O senador acusou Millas de agir como “candidato de aluguel” e instrumento de outras candidaturas. A discussão esquentou, mas não esclareceu ao eleitor quais seriam as prioridades de um eventual governo Wellington.
Natasha pressionada e Maurício parte para o ataque
Natasha Slhessarenko foi questionada sobre a viabilidade de suas propostas econômicas, os recursos recebidos do fundo eleitoral e as alianças políticas de seu partido.
Maurício Coelho classificou a médica como despreparada e afirmou que ela não conseguia explicar adequadamente medidas como a redução de impostos sobre produtos da cesta básica.
Natasha respondeu dizendo que responde pelo próprio CPF e rebateu ataques relacionados aos seus aliados. Também explorou o histórico de figuras ligadas ao movimento político de Rafaell Millas.
Novamente, sobraram acusações e faltaram números, prazos e explicações sobre como as promessas seriam executadas.
Choro marca o único momento de forte conexão humana
O momento de maior emoção ocorreu quando Sargento Laudicério relatou que sua mãe perdeu a visão em razão da demora no atendimento público de saúde.
Aos prantos, o candidato responsabilizou políticos que estão há décadas ocupando cargos públicos e chamou os adversários de “covardes”.
O relato foi forte e humano, mas a emoção não substituiu a necessidade de apresentar uma proposta estruturada para impedir que outras famílias enfrentem o mesmo drama.
Baixaria ultrapassou o estúdio
O pior ainda aconteceria fora do ar.
Durante um dos intervalos, Maurício Coelho afirmou ter sido ameaçado por Roberto Carlos Fraife Barreto, marido de Natasha. Segundo o candidato, ele teria sido puxado durante um cumprimento e ouvido a frase: “Esse negócio vai ficar feio”.
Maurício reagiu afirmando que já praticou jiu-jítsu e que, se fosse necessário, poderia “quebrar o pau”, embora se considerasse civilizado. De acordo com sua versão, Natasha interveio e evitou que a situação se agravasse.
A denúncia não havia sido confirmada pela candidata nem por seu marido até a publicação das informações. O espaço permanece aberto para que apresentem suas versões.
O episódio, entretanto, simbolizou o nível alcançado pelo debate: o confronto político quase cedeu lugar ao confronto físico.
O eleitor foi o grande derrotado
No fim das contas, nenhum candidato saiu verdadeiramente vencedor. Quem perdeu foi o eleitor mato-grossense.
Os participantes tiveram uma grande oportunidade para demonstrar preparo, liderança e conhecimento sobre Mato Grosso. Desperdiçaram o espaço com improvisação, leitura de “colinhas”, ataques pessoais e acusações que pouco contribuíram para a escolha do próximo governador.
As campanhas precisam ligar imediatamente o sinal de alerta. Os candidatos estão mal assessorados, sem preparo de vídeo e sem uma narrativa capaz de convencer a população.
Se esse primeiro encontro serviu como prévia do restante da campanha, Mato Grosso corre o risco de assistir a uma eleição marcada por muita baixaria, pouco conteúdo e quase nenhuma proposta.
O debate da TV Vila Real deveria ter inaugurado a discussão sobre o futuro do Estado. Acabou produzindo um espetáculo constrangedor que, na avaliação do Página 12, ficará registrado como um dos piores da história política de Mato Grosso desde a redemocratização e a eleição direta de 1982.