Cotidiano

36 anos depois da obsessão virar sentença: Justiça enterra a tese da "tragédia" e condena Carlinhos Bezerra por execução da ex e do namorado

Para os jurados, tratou-se de uma execução marcada pela crueldade, motivação torpe e, no caso de Thays, um feminicídio

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM TJMT 01/08/2026
36 anos depois da obsessão virar sentença: Justiça enterra a tese da 'tragédia' e condena Carlinhos Bezerra por execução da ex e do namorado
Os jurados reconheceram quatro qualificadoras na morte de Thays: motivo torpe, meio cruel, recurso que dificultou a defesa da vítima e feminicídio | Arquivo Página 12

Foram necessários dois anos e meio entre os disparos que chocaram Mato Grosso e a sentença que encerra um dos capítulos mais emblemáticos da violência contra a mulher no estado. Nesta sexta-feira (31), o Tribunal do Júri condenou Carlos Alberto Gomes Bezerra, o Carlinhos Bezerra, a 36 anos de prisão pelo assassinato da ex-companheira, Thays Machado, e do então namorado dela, Willian Moreno.

A decisão do Conselho de Sentença vai além da pena. Ela desmonta a narrativa apresentada pelo réu e reconhece que o crime não foi fruto de um impulso, de uma discussão ou de uma "tragédia", como insistiu a defesa. Para os jurados, tratou-se de uma execução marcada pela crueldade, motivação torpe e, no caso de Thays, um feminicídio.

Ao negar que o condenado recorra em liberdade e determinar o cumprimento imediato da pena, a Justiça também enviou um recado claro: crimes cometidos sob o pretexto de ciúme, posse ou inconformismo com o fim de um relacionamento não encontram respaldo no Judiciário.

Durante o interrogatório, Carlinhos admitiu que matou o casal, mas tentou justificar os disparos dizendo que teria sido provocado por Willian, que o chamou de "corno babaca". Alegou ainda legítima defesa, embora nenhuma das vítimas estivesse armada.

A declaração chamou atenção por tentar atribuir à suposta ofensa verbal o estopim para uma sequência de disparos efetuados em plena luz do dia.

A própria dinâmica do crime, porém, pesou contra essa versão. Imagens divulgadas na época mostram o carro conduzido pelo acusado passando em frente ao prédio onde as vítimas estavam, retornando de ré para se aproximar e, em seguida, efetuando mais de dez disparos. Thays e Willian foram atingidos diversas vezes e morreram no local, sem qualquer possibilidade de reação.

A alegação de legítima defesa também contrasta com a investigação conduzida pela Polícia Civil e pelo Ministério Público, que apontou que Carlinhos perseguia a ex-companheira, monitorava seus deslocamentos e mantinha registros da rotina dela, comportamento interpretado como parte de uma escalada de violência após o término do relacionamento.

Embora a defesa tenha insistido em pedidos de adiamento e até em um incidente de insanidade mental, sustentando a existência de transtornos psiquiátricos, o júri concentrou sua análise na responsabilidade criminal pelos fatos.

Os jurados reconheceram quatro qualificadoras na morte de Thays: motivo torpe, meio cruel, recurso que dificultou a defesa da vítima e feminicídio.

Na morte de Willian, também entenderam que houve motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa.

Na prática, o Conselho de Sentença concluiu que não houve um confronto entre homens, nem uma reação emocional momentânea. Houve uma decisão consciente de eliminar a mulher que decidiu seguir a própria vida e o homem que estava ao lado dela.

Desde janeiro de 2023, quando foi preso poucas horas após fugir para uma fazenda da família em Campo Verde, o caso carregou enorme repercussão por envolver o filho do ex-deputado federal Carlos Bezerra, uma das figuras mais influentes da política mato-grossense.

Mas o julgamento terminou concentrado naquilo que realmente importava: as provas produzidas durante a investigação e a brutalidade registrada pelas câmeras.

Dois anos depois, o Tribunal do Júri transformou em condenação aquilo que as imagens já haviam mostrado ao país.

A Justiça não julgou um sobrenome.

Julgou um homem que não aceitou o fim de um relacionamento.

E concluiu que, quando a obsessão substitui o respeito e o sentimento de posse fala mais alto que a liberdade da mulher, o resultado pode ser exatamente o que aconteceu na tarde de 18 de janeiro de 2023: duas vidas interrompidas por quem acreditava ter o direito de decidir quem viveria depois do término.