Cotidiano
SONHO VIROU TRAGÉDIA: JOVEM MORRE EM CIRURGIA PLÁSTICA EM CUIABÁ, DEIXA DOIS FILHOS E EXPÕE HISTÓRICO DE DENÚNCIAS CONTRA MÉDICO SEM ESPECIALIDADE REGISTRADA
Morte de Lurdes Maria, de apenas 24 anos, revela histórico de cinco ações judiciais envolvendo procedimentos estéticos e denúncia anterior contra o médico na Operação Espelho; Polícia Civil e CRM-MT investigam circunstâncias da tragédia
O que deveria representar a realização de um sonho terminou em uma tragédia que deixou duas crianças sem a mãe, um marido devastado e uma série de questionamentos sobre a segurança de procedimentos estéticos em Mato Grosso. A morte de Lurdes Maria de Lima Pessoa Padilha, de apenas 24 anos, durante uma cirurgia plástica realizada na sexta-feira (16), no Hospital Geral e Maternidade de Cuiabá, trouxe à tona um histórico de ações judiciais contra o médico responsável pelo procedimento, questionamentos sobre sua qualificação profissional e uma denúncia criminal anterior relacionada a supostas fraudes em contratos da saúde pública.
O caso, que provocou forte comoção neste sábado (17), passou a ser apurado pela Polícia Civil e pelo Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT). Enquanto as autoridades buscam esclarecer as circunstâncias da morte, informações sobre o passado profissional do médico Euller Gustavo Pompeu de Barros Gonçalves Preza acrescentam novos elementos a um episódio marcado pela dor e por perguntas ainda sem respostas.
Lurdes havia procurado atendimento para realizar procedimentos que desejava havia muito tempo: uma lipoescultura e a colocação de prótes mamárias de silicone. Durante a intervenção, entretanto, a jovem sofreu uma parada cardiorrespiratória. Segundo a versão apresentada pela defesa do médico, a equipe identificou uma intercorrência súbita, interrompeu imediatamente a cirurgia e iniciou manobras de reanimação que se prolongaram por aproximadamente duas horas. Apesar das tentativas, a paciente não resistiu.
O que provocou a parada cardiorrespiratória permanece sem esclarecimento conclusivo. Também não existem, até o momento, resultados periciais divulgados que permitam determinar se a morte decorreu de uma complicação clínica imprevisível ou de eventual falha no atendimento. Essas respostas dependerão das investigações oficiais.
Entretanto, o falecimento da jovem trouxe à tona informações que ampliaram a repercussão do caso. Levantamento publicado neste sábado pelo portal RepórterMT revelou que Euller Preza, inscrito regularmente no Conselho Regional de Medicina sob o número CRM-MT 4711, não possui Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em cirurgia plástica no cadastro público do Conselho Federal de Medicina (CFM). Segundo a publicação, na consulta realizada ao cadastro, o profissional aparecia sem especialidade médica registrada.
A ausência do RQE, isoladamente, não comprova irregularidade na execução de procedimentos cirúrgicos nem significa automaticamente que o médico estivesse impedido de realizá-los. Contudo, o registro é necessário para que o profissional se apresente publicamente como especialista em determinada área da medicina. A informação levanta questionamentos relevantes sobre a formação específica, os critérios de qualificação profissional e a transparência das informações fornecidas aos pacientes que procuram cirurgias estéticas.
Outro aspecto revelado pelo levantamento jornalístico diz respeito à existência de pelo menos cinco ações judiciais movidas por pacientes contra Euller Preza, envolvendo relatos de complicações após procedimentos estéticos. As demandas mencionam infecções, dores intensas, cicatrizes, deformidades, assimetrias e necessidade de novas intervenções cirúrgicas. Três processos permanecem em andamento, um foi encerrado após desistência da autora e outro terminou com a rejeição do pedido de indenização pela Justiça, por falta de comprovação de erro médico.
Entre os episódios relatados judicialmente está o de uma paciente submetida a uma rinoplastia em janeiro de 2015. Na ação, ela afirma ter sentido dores intensas durante o procedimento e posteriormente enfrentado dificuldades respiratórias, alterações na estrutura do nariz e necessidade de cirurgia reparadora. A mulher também questionou as condições em que a intervenção foi realizada. O caso tramita na 4ª Vara Cível de Várzea Grande e aguarda esclarecimentos periciais, sem conclusão judicial sobre a responsabilidade do profissional.
Em outra ação, uma paciente relatou complicações depois da colocação de próteses mamárias, incluindo infecção, abertura de pontos e necessidade de retirar os implantes. Segundo sua versão, foram necessárias outras intervenções para tentar solucionar os problemas. O processo acabou encerrado após a autora desistir da demanda.
Há ainda ações relacionadas a procedimentos de correção mamária e contorno corporal, nas quais pacientes alegam resultados insatisfatórios, cicatrizes, complicações no período pós-operatório e divergências entre os serviços contratados e aqueles supostamente realizados. Todos esses episódios constituem alegações apresentadas em processos judiciais e não podem ser tratados como comprovação automática de erro médico.
O histórico do profissional também inclui uma denúncia apresentada pelo Ministério Público de Mato Grosso em dezembro de 2023, no âmbito da Operação Espelho, investigação que apurou suspeitas de fraudes em licitações e contratos de prestação de serviços médicos na rede pública estadual.
Euller figurou entre os 22 denunciados pelo Ministério Público, que investigou um suposto esquema envolvendo contratos hospitalares, especialmente na prestação de serviços para unidades de terapia intensiva. As suspeitas abrangiam possíveis irregularidades na execução contratual e desvios de recursos públicos.
Na época, o médico negou envolvimento nas irregularidades e afirmou que seu nome havia sido relacionado à investigação por mensagens referentes a valores que cobraria caso fosse contratado para prestar serviços. Não há confirmação, nas informações publicamente consultadas, de condenação definitiva contra ele nesse episódio. A denúncia se refere a fatos distintos e não possui relação demonstrada com a morte de Lurdes Maria.
Diante da repercussão, a defesa do médico se manifestou publicamente. Representado pelo advogado Alex Cardoso, Euller sustenta possuir mais de 25 anos de experiência profissional e ter realizado milhares de procedimentos cirúrgicos. Segundo o defensor, o médico nunca havia registrado a morte de um paciente durante uma cirurgia e apresenta índices reduzidos de complicações em comparação com os parâmetros mencionados na literatura médica.
Sobre a ausência de especialidade registrada no CFM, a defesa argumenta que Euller adquiriu conhecimento por meio da experiência profissional, de cursos e de pós-graduação, ressaltando que não se apresenta formalmente como especialista em cirurgia plástica.
Os representantes jurídicos também afirmam que Lurdes realizou os exames pré-operatórios necessários e que nenhuma alteração identificada nas avaliações impedia a realização dos procedimentos. Segundo a versão apresentada, a cirurgia ocorreu em ambiente hospitalar adequado, com profissionais habilitados, e a equipe adotou imediatamente as medidas de emergência quando percebeu a intercorrência.
A defesa classificou o episódio como uma possível complicação súbita, cuja causa deverá ser esclarecida pelos órgãos competentes. Essa explicação, assim como qualquer hipótese de falha na assistência médica, ainda depende de comprovação técnica.
A Polícia Civil instaurou investigação para esclarecer as circunstâncias da morte. A Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) foi acionada e solicitou exame de necropsia à Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec). Os resultados poderão ajudar a identificar a causa do óbito e fornecer elementos para a apuração de eventual responsabilidade.
A investigação deverá esclarecer questões fundamentais: o que provocou a parada cardiorrespiratória, em qual momento da cirurgia a complicação ocorreu, quais medidas de emergência foram adotadas, se os protocolos de segurança foram observados e se havia condições clínicas adequadas para a realização dos procedimentos. A análise dos registros hospitalares e anestésicos poderá ser importante para reconstruir a sequência dos acontecimentos.
Paralelamente, o CRM-MT anunciou a instauração de uma sindicância de ofício para examinar a dinâmica do atendimento e verificar se houve eventual infração ética. O procedimento tramitará sob sigilo, com garantia de ampla defesa e contraditório. O Conselho ressaltou que a abertura da apuração não representa condenação antecipada dos profissionais envolvidos.
Além das investigações sobre a morte, Euller relatou ter sofrido agressão física e ameaças de morte após a ocorrência. Segundo sua assessoria jurídica, o profissional registrou boletim de ocorrência para documentar os fatos e preservar sua integridade. O episódio também deverá ser apurado pelas autoridades competentes.
Enquanto os desdobramentos policiais, médicos e judiciais avançam, a dimensão mais dolorosa da tragédia aparece na despedida publicada por Juan Pablo Padilha, marido da jovem. Nas redes sociais, ele revelou que a cirurgia representava um sonho antigo de Lurdes, embora ele próprio não fosse favorável à realização do procedimento.
"Essa cirurgia sempre foi o seu sonho, nunca fui a favor, mas sabia que você iria fazer, pois você sempre correu atrás e fez tudo que desejava", escreveu.
A declaração revelou a personalidade determinada da jovem, descrita pelo marido como uma mulher que lutava para realizar seus objetivos e dedicava grande parte de sua vida à família.
Em outro trecho, Juan Pablo demonstrou o desespero diante da responsabilidade de criar os dois filhos sem a presença da esposa. Disse que a ausência deixou um vazio impossível de preencher e lamentou os planos que o casal não poderá mais realizar.
"Tínhamos tantos sonhos para realizar, meu amor. Não sei o que fazer sem você aqui", desabafou.
O marido também pediu perdão por não ter demonstrado diariamente toda a admiração que sentia pela companheira e lembrou que os filhos representam o maior presente que recebeu dela. A homenagem terminou marcada pelo sofrimento de quem ainda tenta compreender uma perda inesperada.
O velório de Lurdes está previsto para começar às 18 horas deste sábado (17), na Capela Jardins, sala Hortência, em Cuiabá. A saída do cortejo para o sepultamento está programada para domingo (18), às 15 horas.
A tragédia reacende uma discussão sobre os riscos envolvidos em cirurgias estéticas, a necessidade de avaliações pré-operatórias rigorosas, a qualificação dos profissionais e a importância de uma estrutura hospitalar preparada para atender situações de emergência. Embora procedimentos dessa natureza possam apresentar complicações graves mesmo quando realizados de acordo com as normas médicas, a ocorrência de uma morte exige apuração criteriosa e transparente.
No caso de Lurdes, os questionamentos sobre a especialidade registrada do profissional e o histórico de demandas judiciais justificam atenção pública, mas não estabelecem, por si mesmos, que tenha ocorrido erro médico. Somente a análise das provas, dos laudos e das circunstâncias específicas do atendimento poderá permitir uma conclusão responsável.
Uma jovem de 24 anos entrou em um hospital para realizar um sonho e não voltou para casa. Duas crianças perderam a mãe, um marido perdeu a companheira e uma família agora espera respostas.
A investigação terá de esclarecer o que realmente aconteceu dentro do centro cirúrgico do Hospital Geral e Maternidade de Cuiabá.
A pergunta que permanece é tão dolorosa quanto necessária: a morte de Lurdes Maria foi consequência de uma complicação médica inevitável ou existiu alguma falha que poderia ter sido identificada e evitada?
Por enquanto, não há conclusão oficial que responda a essa questão. E é justamente essa resposta que a família e a sociedade aguardam.