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Canadá anuncia retaliação de US$ 20 bi em tarifas contra EUA: 'Não vamos ceder'
As medidas entrarão em vigor em 8 de setembro e foram anunciadas após o fracasso das negociações comerciais entre os dois países.
O Canadá anunciou que vai igualar, "dólar por dólar", as tarifas impostas pelo governo de Donald Trump, aplicando taxas que variam de 15% a 50% sobre cerca de 28 bilhões de dólares canadenses (aproximadamente US$ 20 bilhões) em produtos importados dos Estados Unidos.
A lista inclui aço, laticínios, eletrodomésticos e uma série de outras mercadorias.
As medidas entrarão em vigor em 8 de setembro e foram anunciadas após o fracasso das negociações comerciais entre os dois países. Elas se somam às tarifas já existentes sobre produtos canadenses como alumínio, automóveis e madeira.
O governo canadense adotou um tom firme nesta terça-feira (25/8) ao anunciar a nova rodada de tarifas. O ministro de Inteligência Artificial e Inovação Digital, Evan Solomon, disse que o país "não pediu por esse conflito comercial, mas está preparado para ele".
"Estamos prontos para fazer um bom acordo, mas não vamos aceitar um acordo ruim. Não vamos ceder, não vamos recuar, vamos construir", afirmou.
Mas que poder de negociação o Canadá — que vende cerca de 70% de seus produtos para os Estados Unidos — realmente tem nesta disputa comercial em escalada com seu vizinho do sul, que é também a maior economia do mundo?
O Canadá é o principal cliente de 26 estados americanos, incluindo Maine, Michigan e Wisconsin. Além disso, figura entre os três maiores compradores de 45 dos 50 estados americanos, o que sugere que o primeiro-ministro Mark Carney tem margem de manobra em um embate comercial.
O governo canadense também sinalizou que a retaliação não se limitará às tarifas. O ministro das Finanças, François-Philippe Champagne, afirmou que as medidas tarifárias são apenas uma parte da resposta e anunciou um pacote de C$ 7,5 bilhões para apoiar trabalhadores e empresas afetados pela disputa.
Ao mesmo tempo, o governo optou por não atingir, por enquanto, setores importantes para a economia americana, como energia e potássio. Segundo Champagne, a resposta foi desenhada de forma proporcional e direcionada aos produtos considerados mais adequados para pressionar os Estados Unidos.
A decisão de deixar energia e potássio fora da nova rodada de tarifas não significa, porém, que essas cartas estejam definitivamente descartadas.
Aqui estão algumas áreas onde o Canadá pode exercer pressão econômica.
Energia e minerais críticos
Carney observou no sábado (22/8) que o Canadá fornece a vasta maioria das importações de gás natural e eletricidade dos EUA, bem como cerca de 60% das importações de petróleo bruto.
"Não acho que eles queiram que paremos de enviar qualquer parte dessa energia", disse ele.
Apesar disso, energia e potássio ficaram de fora da nova rodada de tarifas canadenses. Questionado sobre a decisão, Champagne afirmou nesta terça-feira que a resposta do Canadá foi "proporcional" e que o governo sabe quais produtos devem ser atingidos.
Segundo o ministro, as novas tarifas americanas afetarão de forma desproporcional pequenas e médias empresas canadenses. Ele afirmou que o governo está concentrado em apoiar essas empresas e que a estratégia adotada deverá orientar a resposta canadense nos próximos dias e semanas.
Várias autoridades políticas disseram, contudo, que a ideia de pressionar os EUA no setor de energia não foi descartada — mas nem todos os chefes de governo provinciais estejam dispostos a usar essa carta na manga.
Ford, cuja província de Ontário abriga a indústria automobilística do Canadá, está atento aos possíveis desdobramentos da disputa e afirmou que uma "sobretaxa de energia está sendo considerada".

Crédito,Getty Images
Ele chegou a sugerir brevemente uma sobretaxa de 25% em 2025 sobre todas as exportações de eletricidade para os EUA — medida que, segundo estimativas de seu governo, afetaria 1,5 milhão de residências e empresas em Michigan, Minnesota e Nova York.
O país também é uma importante fonte de commodities essenciais, incluindo o potássio — um insumo para fertilizantes do qual o Canadá é o maior fornecedor mundial.
"Eu adoraria ver [Trump] fazer carros funcionarem sem petróleo. Adoraria vê-lo cultivar frutas e legumes sem o potássio", disse Ford na segunda-feira. "O presidente Trump nos subestima, e esse é seu maior erro."
O Canadá também tem reservas significativas de minerais críticos, como lítio, níquel e grafite. Os EUA são o principal destino das exportações minerais canadenses em geral, outro ponto onde Ottawa poderia exercer pressão.
Nesse aspecto, Ford também assumiu a liderança, declarando em entrevista à agência de notícias Associated Press que os EUA "não conseguirão tirar nem um grão de areia de Ontário".
Poder aquisitivo
O Canadá já provou que pode causar prejuízos econômicos aos EUA.
Mesmo antes do colapso das negociações comerciais, a decisão da maioria das províncias de banir bebidas alcoólicas dos EUA das prateleiras das lojas — em resposta à primeira onda de tarifas americanas no início do ano passado — desferiu um golpe devastador nesse setor nos EUA.
Os vinhos americanos sofreram uma queda significativa nas exportações, algo que o Wine Institute classificou como a "perturbação de mercado mais significativa em décadas".
As exportações de vinho dos EUA para o Canadá caíram 78% em relação ao ano anterior, representando uma perda de US$ 357 milhões (R$ 1,8 bilhão) em valor de exportação, segundo dados do governo.
A associação de produtores de destilados relatou números semelhantes, afirmando que as proibições provinciais fizeram com que as exportações de destilados americanos caíssem mais de 70%.
Esse boicote permanece em vigor em 11 das 13 províncias e territórios canadenses. A proibição é motivo de grande frustração para o governo Trump.
Embora esse boicote às bebidas alcoólicas tenha sido implementado por líderes políticos, também houve decisões individuais de muitos canadenses que prejudicaram a economia de seu vizinho — como evitar viagens aos EUA.
Mesmo com um leve aumento nas viagens de carro para os EUA em abril, os canadenses realizaram 800 mil viagens a menos naquele mês em comparação com o mesmo período de 2024, antes do retorno de Trump ao cargo, segundo dados nacionais.
O boicote às viagens resultou em uma perda de cerca de C$ 3,3 bilhões (R$ 12,1 bilhões) em receitas para os EUA no ano passado. Algumas cidades e estados americanos têm apelado para que os canadenses voltem, utilizando anúncios direcionados e ofertas especiais.
Pressão política
Os canadenses sabem que sofrerão impactos econômicos com essa disputa; analistas financeiros estimaram que as tarifas mais recentes de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em importações canadenses poderiam reduzir o PIB do país entre 0,3% e 0,6% no curto prazo.
Ainda assim, a maioria da população apoia amplamente a decisão de Ottawa de adotar uma postura firme nas negociações com o governo Trump. E outras lideranças políticas canadenses têm demonstrado unidade.
Uma pesquisa do instituto Angus Reid realizada no último fim de semana indicou que cerca de 76% dos canadenses apoiam a decisão de Ottawa de abandonar as negociações comerciais, mesmo temendo pela segurança de seus próprios empregos.
As eleições de meio de mandato nos EUA se aproximam rapidamente, com a economia sendo a principal preocupação dos eleitores e o controle republicano do Congresso parecendo instável.
Duas das disputas mais importantes para o Senado ocorrem em Michigan e no Maine; ambos os estados fazem fronteira com o Canadá e destinam a maior parte de suas exportações para lá.

Crédito,Reuters
O Yale Budget Lab calcula que, sob a legislação atual, as tarifas globais de Trump custarão às famílias americanas cerca de US$ 1.100 (R$ 5.675) por ano.
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Na segunda-feira, Carney afirmou que os trabalhadores americanos seriam prejudicados pela ameaça mais recente de Trump de elevar para 50% as tarifas sobre automóveis e autopeças provenientes do Canadá após 1º de janeiro.
"Qual é a mensagem enviada aos trabalhadores de Michigan, Ohio, Kentucky e Alabama? Esses trabalhadores dependem absolutamente do Canadá, seu maior consumidor", disse ele, acrescentando que o Canadá compra mais carros americanos do que a União Europeia e outros países.
Em entrevista à CNN na segunda-feira (24/8), o primeiro-ministro da Colúmbia Britânica, David Eby, observou que os consumidores americanos sentirão o impacto das tarifas dos EUA em diversos produtos.
"Se você está construindo uma casa nova, no compensado; se está trocando o piso, nas lâminas de madeira; se vai se casar, nas flores de corte; se vai pescar, nas varas de pesca", exemplificou. "É uma política bizarra para os americanos. Vai prejudicá-los."
Ford, um dos líderes canadenses que mais se opõem às tarifas de Trump, também não descartou a possibilidade de mirar especificamente estados americanos republicanos com medidas de retaliação e de "garantir que a economia dos EUA sinta o impacto".Quanto às próximas eleições de meio de mandato, Ford afirmou: "Se me fosse permitido, eu iria até lá bater de porta em porta".