Polícia
Advogado de MT entra na mira da PF acusado de negociar decisão de R$ 5 milhões no STJ
Operação Sisamnes aponta que Dieggo Bruno Pio tratou cifras milionárias com lobista executado dias antes do julgamento de caso de R$ 13,8 milhões no Superior Tribunal de Justiça
Um advogado de Mato Grosso entrou oficialmente no radar da Polícia Federal em meio à investigação de um suposto mercado clandestino de decisões dentro do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Trata-se de Dieggo Bruno Pio da Silva Jesus, que, segundo relatório da Operação Sisamnes, discutiu o pagamento de R$ 5 milhões em mensagens trocadas com o lobista Roberto Zampieri — assassinado com dez tiros dias depois de conversar com ele.
As mensagens foram trocadas entre novembro e dezembro de 2023, justamente no período em que um Recurso Especial de um cliente de Dieggo corria no STJ. A PF suspeita que o valor tratado seria relativo à compra de uma decisão judicial.
A defesa de Dieggo não foi localizada até a publicação desta reportagem. O espaço está aberto.
R$ 5 milhões em jogo às vésperas do julgamento
O diálogo recuperado pela PF no dia 1º de dezembro de 2023, quatro dias antes da execução de Zampieri, gira em torno de um pagamento de R$ 5 milhões. Segundo a investigação, a conversa está ligada ao julgamento, no STJ, de um caso envolvendo R$ 13,8 milhões.
O empresário Oscar Nunes da Silva e familiares — clientes de Dieggo — tentavam receber o valor dos produtores rurais Alessandro Nicoli, Alessandra Nicoli e da empresa Nicoli Agro Ltda., em recuperação judicial.
A defesa dos Nicoli estava nas mãos do advogado Euclides Ribeiro Jr., que também aparece mencionado na investigação por manter contato com Zampieri.
Ou seja: conforme a PF, o mesmo lobista transitava livremente entre os dois lados da causa, ao mesmo tempo em que discutia milhões com o advogado de MT.
Personagem central no submundo do STJ
O relatório descreve que Dieggo aparece numa posição extremamente sensível da engrenagem investigada: a zona de contato direto entre dinheiro e decisão judicial.
A Sisamnes — que apura um esquema milionário liderado pelo lobista Andreson Gonçalves, o “mestre dos magos” — mostra que: honorários e consultorias eram usados como fachada para propina; empresas de transporte, táxi aéreo e turismo funcionavam como lavanderias; operadores sacavam milhões em dinheiro vivo e cartões de crédito “turbinados”, pagos antecipadamente com dinheiro sujo, eram entregues como presentes a agentes públicos.
É dentro dessa estrutura que Dieggo surge negociando valores estratosféricos às vésperas de um julgamento crucial no STJ.
Conversas, pressões e morte de queima de arquivo
Segundo a PF, as conversas entre Dieggo e Zampieri mostram intimidade, troca de informações e negociações sobre valores diretamente ligados ao processo no STJ.
Quatro dias depois da tratativa de R$ 5 milhões, Zampieri foi executado na porta do escritório, em Cuiabá, por um pistoleiro de aluguel.
O inquérito apura se a morte está relacionada ao esquema criminoso — ou se seria uma tentativa de queima de arquivo.
O lobista que conversava com ministros
Zampieri servia como ponte entre advogados, empresários e operadores financeiros. Ele também mantinha contato com integrantes de gabinetes no STJ.
A PF aponta que: ele se apresentava como alguém “capaz de resolver” decisões; movimentou R$ 12,7 milhões em dinheiro vivo; transferiu mais de R$ 7 milhões para empresas de Andreson e sacou R$ 1 milhão em espécie de uma só vez.
A presença de Dieggo em diálogo com esse núcleo, tratando milhões, acende o alerta máximo da PF.
Quem é o advogado investigado
Segundo a PF, Dieggo: atuava em causas de grande porte em MT; tinha clientes com disputas milionárias no STJ; mantinha relação direta com Zampieri e teria discutido cifras que “não se justificam fora do contexto investigado”.
Para os federais, ele é uma “peça estratégica” no contexto da Sisamnes.
Outro lado
A reportagem tentou contato com Dieggo Bruno Pio, mas não obteve retorno até a última atualização deste texto.
O espaço segue aberto para esclarecimentos, notas ou documentos.