Polícia

ESCÂNDALO EXPLODE EM MT: 15 VEREADORES NA MIRA DO GAECO, SUSPEITA DE COMPRA DE VOTOS E GUERRA PELO PODER ABALAM CUIABÁ E VG

Operação Cathedra Venalis investiga suposto esquema de corrupção na disputa pelo comando da Câmara de Várzea Grande; R$ 40 mil em dinheiro vivo, reuniões em chácara, buscas policiais e confronto entre parlamentares colocam a política da Baixada Cuiabana

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM GAECO-MT 20/10/2026
ESCÂNDALO EXPLODE EM MT: 15 VEREADORES NA MIRA DO GAECO, SUSPEITA DE COMPRA DE VOTOS E GUERRA PELO PODER ABALAM CUIABÁ E VG
Segundo informações a abordagem policial ocorreu depois de um almoço que reuniu parlamentares em uma chácara | Divulgação

Uma verdadeira tempestade política atingiu os bastidores do poder em Mato Grosso nesta terça-feira (20). O que começou como uma disputa acirrada pela presidência da Câmara Municipal de Várzea Grande transformou-se em uma investigação de grandes proporções sobre suspeitas de corrupção, compra de votos, negociação de vantagens indevidas e possível atuação de uma organização criminosa. No centro do escândalo estão 15 vereadores de Cuiabá e Várzea Grande, alcançados pela Operação Cathedra Venalis, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT).

A operação mobilizou mais de 200 policiais e resultou no cumprimento de 30 mandados judiciais de busca e apreensão domiciliar, pessoal e veicular, em endereços ligados aos investigados nas cidades de Cuiabá, Várzea Grande e Chapada dos Guimarães. Entre os alvos estão 13 vereadores várzea-grandenses e dois da Capital, além de pessoas que ocupam funções administrativas no Legislativo municipal.

Mas, por trás das buscas, surgiu um episódio que acrescentou ainda mais combustível à crise: a informação de que aproximadamente R$ 40 mil em dinheiro vivo teriam sido encontrados durante uma abordagem da Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas (Rotam), em maio deste ano, em um veículo ocupado pelos vereadores cuiabanos Ilde Taques e Alex Rodrigues, ambos do Podemos. Os parlamentares haviam participado de um encontro com integrantes do grupo político envolvido na eleição da Mesa Diretora de Várzea Grande.

Segundo informações a abordagem policial ocorreu depois de um almoço que reuniu parlamentares em uma chácara. O episódio teria originado um relatório policial que contribuiu para o avanço das investigações. O dinheiro não chegou a ser apreendido naquela ocasião. A existência da quantia e sua eventual relação com irregularidades eleitorais internas são questões distintas, que dependem de comprovação.

Questionado sobre o episódio, Ilde Taques confirmou que participou do encontro e foi abordado pela Rotam, mas afirmou que nada ilegal foi apreendido dele. Alex Rodrigues declarou que nenhum dinheiro foi encontrado em sua posse, negou ser proprietário do veículo e disse estar sendo envolvido nas investigações por ter comparecido ao encontro. Ambos rejeitam participação em qualquer negociação ilícita de votos.

O episódio ganha ainda mais repercussão porque Ilde Taques foi eleito, recentemente, presidente da Câmara Municipal de Cuiabá para o biênio 2027/2028. Sua presença entre os alvos das diligências levou a investigação, originalmente concentrada na disputa política de Várzea Grande, a produzir reflexos também na Capital mato-grossense.

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A disputa que está no centro das apurações ocorreu em 14 de maio de 2026, quando Wanderley Cerqueira (MDB) conseguiu sua recondução à presidência da Câmara de Várzea Grande por uma diferença mínima: 12 votos contra 11 de Lucas do Chapéu do Sol (PL), parlamentar ligado politicamente à prefeita Flávia Moretti (PL). A eleição foi posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em razão de sua antecipação irregular para o biênio 2027/2028. A anulação, entretanto, não significou reconhecimento judicial de compra de votos.

A votação já havia provocado denúncias e questionamentos sobre os métodos utilizados para conquistar apoio político. Entre as alegações divulgadas anteriormente estavam suspeitas de oferecimento de vantagens financeiras e relatos sobre vereadores reunidos em uma chácara, onde supostamente teriam permanecido sob vigilância de seguranças armados. Essas versões ainda não foram demonstradas publicamente como fatos comprovados, e parlamentares envolvidos nas reuniões negam irregularidades.

Agora, com a entrada do Gaeco, a questão central passou a ser se a negociação política legítima teria ultrapassado os limites da lei e envolvido pagamentos clandestinos ou outras vantagens indevidas. O Ministério Público informou que apura a possível atuação estruturada de um grupo voltado à cooptação de agentes públicos e a práticas de corrupção com reflexos sobre a administração municipal.

O nome escolhido para a operação é simbólico: Cathedra Venalis, expressão latina que pode ser traduzida como "cadeira venal" ou "cargo negociado". A denominação faz referência às suspeitas investigadas e à possibilidade de utilização de vantagens ilícitas para influenciar o exercício de funções públicas.

Entre os 13 vereadores de Várzea Grande apontados pela imprensa como alvos da operação estão Wanderley Cerqueira (MDB), Alessandro Moreira (MDB), Braz Jaciro (PSDB), Cilço da Cruz, conhecido como Cilcinho (PV), Denival Galibert (PSB), Emerson César, o Enfermeiro Emerson (PP), Gisa Barros (Podemos), Kleberton Feitoza (PSB), Lucélia Oliveira (Agir), Miguel Angel, conhecido como Dr. Miguel Júnior (Cidadania), Raul Curvo (Republicanos), Wender Silva, o Wender Madureira (Republicanos), e Rogerinho Dakar (PSDB).

Em Cuiabá, os dois vereadores identificados como alvos são Ilde Taques e Alex Rodrigues, ambos do Podemos. Também foram mencionados nas reportagens a diretora financeira da Câmara de Várzea Grande, Lorineide Aparecida Trindade Inhan, e o secretário legislativo Samir Katumata, conhecido como Samir Japonês.

A relação nominal foi divulgada por veículos de comunicação, enquanto a nota oficial do Ministério Público confirmou a quantidade de vereadores envolvidos sem detalhar publicamente a conduta individual atribuída a cada um. A vereadora Rosy Prado (União Brasil), cujo nome chegou a constar equivocadamente em algumas publicações, não é alvo da operação, conforme retificação divulgada nesta terça-feira.

Como se a ofensiva policial não bastasse para colocar a política várzea-grandense em ebulição, a sessão da Câmara Municipal desta terça-feira foi marcada por um confronto entre o presidente Wanderley Cerqueira e o vereador Bruno Rios (PL), adversário político do grupo que venceu a eleição posteriormente anulada.

Em um momento registrado pelos microfones da Casa, Wanderley dirigiu-se a Bruno e disparou: "Você vai pagar, meu filho". Bruno reagiu ao comentário e contestou a postura do presidente. O episódio, divulgado em vídeos pela imprensa regional, escancarou o ambiente de tensão política no Legislativo poucas horas depois das diligências do Gaeco. Não há, entretanto, confirmação de que a discussão tenha relação direta com os fatos investigados.

A reação dos parlamentares citados na operação também ganhou destaque. Raul Curvo afirmou ter sido surpreendido com as buscas e negou irregularidades. Rogerinho Dakar declarou que não participou da eleição da Mesa Diretora porque, naquele período, exercia uma função no Departamento de Água e Esgoto (DAE) de Várzea Grande. Miguel Júnior sustentou que o encontro realizado antes da votação teve caráter de confraternização, rejeitando qualquer participação em negociação ilegal.

Na Câmara Municipal de Cuiabá, a repercussão exigiu posicionamento institucional. O procurador-geral do Legislativo, Eustáquio Neto, afirmou que a investigação está relacionada a fatos envolvendo a eleição da Mesa Diretora de Várzea Grande e que não havia elementos oficialmente apresentados à instituição que justificassem alterações no funcionamento da Casa. Segundo ele, as atividades parlamentares continuam normalmente, enquanto as autoridades apuram os acontecimentos.

O material recolhido durante as buscas poderá ajudar os investigadores a reconstruir a sequência de encontros, contatos e eventuais negociações políticas que antecederam a eleição de maio. Registros telefônicos, mensagens, documentos e outros elementos eventualmente obtidos poderão ser confrontados com os depoimentos e as versões apresentadas pelos investigados.

Também será necessário esclarecer a origem e a destinação do dinheiro mencionado na abordagem policial, identificar eventuais responsáveis por negociações suspeitas e determinar se houve participação de agentes públicos em alguma conduta criminosa. A localização de dinheiro em espécie, por si só, não comprova corrupção, assim como a participação em reuniões políticas não caracteriza automaticamente qualquer delito.

O que a Operação Cathedra Venalis coloca sob investigação, porém, é uma questão de enorme interesse público: se votos destinados à escolha do comando de uma instituição legislativa teriam sido influenciados por vantagens indevidas, em prejuízo da independência parlamentar e da confiança da população.

A dimensão das diligências demonstra a gravidade das hipóteses examinadas pelo Ministério Público, mas não permite antecipar conclusões sobre a responsabilidade de qualquer investigado. Até as informações divulgadas nesta terça-feira, não havia notícia de mandados de prisão relacionados à operação. Todos os citados têm direito à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.

A pergunta que movimenta os bastidores políticos de Mato Grosso é se as investigações conseguirão transformar as suspeitas em provas concretas de um esquema de corrupção ou se os fatos terão explicações compatíveis com a legalidade das articulações parlamentares.

Enquanto essa resposta não chega, a crise política se aprofunda. A investigação já alcançou representantes de duas das maiores cidades de Mato Grosso, colocou em evidência o processo de escolha do comando de seus Legislativos e expôs uma disputa de poder que está longe de terminar.

O Página 12 seguirá acompanhando os desdobramentos da Operação Cathedra Venalis, as conclusões das autoridades e as manifestações dos investigados, assegurando espaço para os esclarecimentos e o direito de resposta dos citados.