Polícia
DO CARIBE PARA A PRISÃO: fiscal de Sinop é surpreendido pelo Gaeco no aeroporto em escândalo de corrupção milionária
Servidor voltava de viagem à República Dominicana quando foi interceptado por agentes; operação investiga cobrança de propinas, já levou seis pessoas à prisão e provocou decisão judicial de bloqueio de até R$ 80 milhões
O que seria o retorno tranquilo de uma viagem ao paraíso turístico do Caribe terminou em prisão e escolta policial. O fiscal de obras da Prefeitura de Sinop, Eliseu Rodrigues de Carvalho, foi surpreendido por agentes do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) na quinta-feira (29), logo após desembarcar de uma viagem à República Dominicana. Ele é investigado por suspeita de envolvimento em um esquema de corrupção que teria transformado procedimentos de aprovação de obras e empreendimentos imobiliários em oportunidades de cobrança de propina.
A abordagem ocorreu no Aeroporto Municipal Presidente João Batista Figueiredo, em Sinop(500 quilômetros de Cuiabá). Imagens registraram o momento em que o servidor caminhava próximo à saída do terminal e foi interceptado pelos agentes. Com apoio da Força Tática, ele foi conduzido à sua residência para o cumprimento de diligências policiais.
A prisão representa mais um desdobramento da Operação Mãos à Obra – Fase II, deflagrada na quarta-feira (28). Cinco investigados já haviam sido presos, e Eliseu tornou-se o sexto alvo detido na ofensiva contra a suposta rede de corrupção instalada em procedimentos administrativos ligados ao setor imobiliário.
Segundo as investigações, o esquema teria funcionado entre 2017 e 2026, envolvendo servidores públicos e empresários interessados em acelerar processos, facilitar aprovações, obter licenças e regularizar empreendimentos. O Gaeco apura suspeitas de exigência e pagamento de vantagens indevidas, além de possíveis interferências em fiscalizações da Secretaria Municipal de Planejamento Urbano e Habitação.
A dimensão patrimonial da operação impressiona. A Justiça autorizou o bloqueio de até R$ 80 milhões em bens e valores relacionados a um grupo de investigados e uma empresa. Também foram determinadas medidas de sequestro de ativos de até R$ 3 milhões para outros alvos e a indisponibilidade de imóveis. Os valores representam limites de medidas cautelares, não quantias comprovadamente desviadas dos cofres públicos.

Durante as diligências, o Gaeco também apreendeu R$ 302 mil em dinheiro vivo na residência de um empresário investigado, além de seis veículos de luxo avaliados, segundo a polícia, em mais de R$ 6 milhões. Entre os automóveis estavam modelos esportivos de alto valor. Essas apreensões não foram atribuídas individualmente ao fiscal preso no aeroporto.
A operação ainda determinou o afastamento de seis servidores municipais e a suspensão de atividades econômicas e financeiras de uma empresa investigada. Entre os detidos na quarta-feira estão servidores ligados à administração municipal e empresários do setor da construção civil.
Em nota, a Prefeitura de Sinop afirmou que a administração municipal e a Secretaria de Planejamento não são alvos da investigação, que se concentra em possíveis condutas individuais de servidores. O município declarou que está colaborando com as autoridades e disponibilizando os documentos necessários.
A investigação continua para identificar a participação de cada suspeito, a origem dos recursos apreendidos e a eventual extensão das irregularidades. Os investigados têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência.
De uma viagem ao Caribe ao cumprimento de um mandado de prisão no aeroporto, o episódio expõe a gravidade das suspeitas que agora estão sob investigação em Sinop. A pergunta que permanece é até onde chegava a suposta rede de favorecimentos envolvendo o mercado imobiliário e agentes públicos do município.
