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DINHEIRO NA MOCHILA, MILHÕES FORA DA TRANSPARÊNCIA: STJ EXPÕE SUPOSTO ESQUEMA NO TCE-MT E PF APREENDE R$ 4,3 MILHÕES

Decisão de 28 páginas revela pagamentos milionários, 150 saques em dinheiro vivo e movimentações suspeitas de R$ 75,8 milhões; seis investigados continuam presos, 15 são afastados e Tribunal terá que reorganizar seu Plenário

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM STJ-MT 30/10/2026
DINHEIRO NA MOCHILA, MILHÕES FORA DA TRANSPARÊNCIA: STJ EXPÕE SUPOSTO ESQUEMA NO TCE-MT E PF APREENDE R$ 4,3 MILHÕES
A Operação Tomada de Contas, deflagrada pela Polícia Federal na quinta-feira (29), expôs um cenário que ganha novos contornos nesta sexta-feira (30), com a divulgação do balanço das apreensões | Arquivo Página 12

do dinheiro público, está no centro de uma investigação que revela cifras milionárias, suspeitas de corrupção, pagamentos ocultos da folha convencional e uma estrutura de movimentação financeira que teria funcionado dentro da própria instituição. A Operação Tomada de Contas, deflagrada pela Polícia Federal na quinta-feira (29), expôs um cenário que ganha novos contornos nesta sexta-feira (30), com a divulgação do balanço das apreensões e dos detalhes da decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

A Polícia Federal apreendeu R$ 4,36 milhões em dinheiro vivo, 167 relógios, 31 veículos, 16 armas de fogo, 6.512 munições, 27 celulares e 112 garrafas de bebidas alcoólicas. Também foram encontrados dólares, euros, libras esterlinas e pesos argentinos. Parte das bebidas estava no gabinete do consultor jurídico-geral do TCE-MT, Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, um dos investigados presos.

A decisão do ministro Og Fernandes, do STJ, revela que sete conselheiros investigados tiveram aproximadamente R$ 48,4 milhões creditados em suas contas bancárias, enquanto o Portal da Transparência registrava apenas R$ 2,2 milhões em remunerações no período analisado. Os pagamentos suspeitos eram realizados por ordens bancárias avulsas, inclusive mediante canais destinados normalmente a fornecedores.

No caso do presidente do TCE-MT, Sérgio Ricardo de Almeida, preso preventivamente, a diferença é ainda mais impressionante: os registros públicos indicavam cerca de R$ 288 mil, enquanto a investigação identificou R$ 15,4 milhões em créditos bancários em menos de dez meses. A Polícia Federal também apontou 150 saques em espécie que totalizaram R$ 15,6 milhões. Os valores de créditos e saques não devem ser somados, pois podem representar etapas de uma mesma movimentação.

As imagens de câmeras de segurança da agência do Sicoob instalada nas dependências do Tribunal também se tornaram peças importantes da investigação. Segundo a decisão, registros mostram servidores retirando grandes quantias, manuseando pacotes de dinheiro e realizando entregas. Em uma das gravações, Grhegory Maia aparece colocando blocos de cédulas em uma mochila. Ele é apontado como o maior destinatário individual de recursos investigados, com aproximadamente R$ 32,3 milhões recebidos em 12 contas bancárias de nove instituições financeiras.

Outra personagem central é Roseli Loss, chefe de gabinete de Sérgio Ricardo. Conforme os investigadores, ela teria realizado saques que somam R$ 3,52 milhões e, em seis ocasiões, entregue valores a Adriangelo Barros Antunes, ex-cunhado do presidente do TCE. Ambos estão entre os presos preventivamente.

A investigação também aponta que contratos administrativos teriam sido utilizados como instrumento de pressão sobre empresas fornecedoras. A suspeita é de que determinadas empresas continuassem recebendo pagamentos mediante devolução de parte dos recursos a integrantes do suposto esquema. A análise de movimentações financeiras identificou aproximadamente R$ 75,8 milhões considerados suspeitos entre janeiro e outubro de 2025.

Um dos aspectos mais relevantes da decisão é que o Ministério Público Federal havia defendido, inicialmente, a aplicação de medidas cautelares alternativas às prisões. Entretanto, Og Fernandes considerou que o poder de influência dos investigados, a possibilidade de continuidade das práticas e o risco de interferência na produção de provas justificavam as seis prisões preventivas.

As detenções de Sérgio Ricardo, Grhegory Maia, Gustavo Fernandes da Silva, Felipe José Glinke, Roseli Loss e Adriangelo Barros Antunes foram mantidas após audiência de custódia. Sérgio Ricardo ficou destinado à custódia no Bope, em Cuiabá, enquanto outros investigados foram encaminhados a unidades prisionais da capital e de Várzea Grande.

Além das prisões, outros 15 investigados foram submetidos a medidas cautelares. Entre os conselheiros titulares afastados estão Guilherme Antônio Maluf, José Carlos Novelli e Alisson Carvalho de Alencar. O conselheiro aposentado Valter Albano da Silva também foi alcançado pelas restrições judiciais.

A crise agora atinge diretamente o funcionamento do Tribunal. Com quatro dos sete conselheiros titulares afastados das funções, o STJ determinou que a Corte informe, em cinco dias, a composição do Plenário e o quadro de auditores substitutos. Waldir Júlio Teis, vice-presidente, é o responsável pela condução da reorganização institucional.

O TCE-MT informou que cumprirá as determinações judiciais e assegurará a continuidade de suas atividades. A sessão plenária prevista para terça-feira (3) foi suspensa.

A Operação Tomada de Contas está longe de encerrar seus desdobramentos. A Polícia Federal deverá aprofundar a análise dos documentos, equipamentos eletrônicos e movimentações financeiras para identificar a origem, o destino e os beneficiários dos recursos investigados.

Os fatos podem configurar, em tese, crimes contra a administração pública, lavagem de dinheiro e organização criminosa. As apurações prosseguem, e os investigados têm direito à presunção de inocência, ao contraditório e à ampla defesa.