Polícia
A CAIXA-PRETA DO TCE: Antônio Joaquim, Campos Neto e Waldir Teis também receberam milhões em pagamentos investigados pela PF
Levantamento financeiro revela R$ 6,8 milhões em créditos aos três conselheiros que escaparam das medidas cautelares da Operação Tomada de Contas; valores identificados nas contas de sete conselheiros titulares e do aposentado Valter Albano
A caixa-preta do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT) parece não ter fundo. Depois da prisão do presidente Sérgio Ricardo de Almeida e do afastamento de outros integrantes da cúpula da instituição, novas revelações colocam sob escrutínio os pagamentos milionários recebidos pelos conselheiros Antônio Joaquim Moraes Rodrigues Neto, Gonçalo Domingos de Campos Neto e Waldir Júlio Teis. As informações, divulgadas na edição deste domingo (1º de novembro) do jornal A Gazeta, ampliam a dimensão do escândalo que abalou a Corte de Contas de Mato Grosso.
De acordo com documentos da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República (PGR), divulgados pela imprensa, os três receberam, juntos, R$ 6.884.421,25 milhões do TCE-MT entre janeiro e outubro de 2025. Parte dos créditos foi realizada fora das datas habituais de pagamento, enquanto outras transferências utilizaram modalidades bancárias que despertaram a atenção dos investigadores.
A revelação amplia o alcance do escândalo que atingiu a Corte de Contas na quinta-feira (29), quando foi deflagrada a Operação Tomada de Contas, autorizada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Até Campos Neto aparece no levantamento
O caso mais surpreendente envolve Gonçalo Domingos de Campos Neto, considerado até então o único conselheiro titular que não havia sido atingido pelas operações Malebolge, de 2017, e Tomada de Contas, de 2026.
Entretanto, os dados bancários analisados pela PF apontam que ele recebeu R$ 3.055.343,21 no período investigado.
Segundo a apuração, houve uma mudança significativa no padrão dos pagamentos a partir de abril de 2025, quando os créditos mensais passaram a superar R$ 300 mil. Desse montante, R$ 2,09 milhões foram transferidos sob rubrica normalmente utilizada para pagamentos a fornecedores.
O decano Antônio Joaquim também aparece no levantamento, com R$ 2.336.348,07 recebidos. Desse total, aproximadamente R$ 1,53 milhão foi transferido em datas diferentes daquelas habitualmente destinadas ao pagamento salarial.
Já Waldir Júlio Teis, que assumiu interinamente a Presidência do tribunal após a prisão de Sérgio Ricardo, recebeu R$ 1.492.729,97. Os investigadores identificaram, entre os créditos, duas transferências de R$ 100.116,55 cada, realizadas por meio de ordens bancárias.
Embora os três não tenham sido atingidos pelas medidas cautelares pessoais da operação, a PF considerou que suas movimentações merecem aprofundamento. Até o momento, não existe conclusão definitiva de que os valores recebidos por eles tenham origem ilícita.
R$ 56,6 milhões no radar financeiro da PF
O levantamento bancário envolvendo os sete atuais conselheiros titulares e o aposentado Valter Albano revela créditos que, somados, chegam a aproximadamente R$ 56,65 milhões.
Entre os maiores valores identificados estão os R$ 15,44 milhões atribuídos ao presidente afastado Sérgio Ricardo, os R$ 10,64 milhões recebidos por Guilherme Maluf, os R$ 8,87 milhões de José Carlos Novelli, os R$ 8,18 milhões de Alisson Alencar e os R$ 6,61 milhões de Valter Albano.
No caso de Alisson, os créditos analisados são referentes ao período em que ainda exercia o cargo de procurador de Contas, antes de assumir como conselheiro em dezembro de 2025.
A investigação procura esclarecer a natureza dos pagamentos e a eventual existência de uma estrutura paralela de distribuição de recursos públicos. A soma dos créditos não representa, necessariamente, o valor de dinheiro desviado.
Segundo a Polícia Federal, o suposto esquema teria utilizado contratos administrativos, ordens bancárias avulsas, pagamentos fora da folha salarial convencional e saques em dinheiro vivo.
A investigação aponta Sérgio Ricardo como possível responsável pelo comando da estrutura suspeita. O conselheiro foi preso preventivamente por determinação do ministro Og Fernandes, do STJ.
O episódio reacende a crise institucional iniciada com a Operação Malebolge, em 2017, quando integrantes da Corte foram afastados em meio a investigações de corrupção. Antônio Joaquim e Waldir Teis estavam entre os atingidos naquela ocasião.
Agora, a nova apuração acrescenta um capítulo ainda mais delicado à história do TCE-MT: todos os sete conselheiros titulares aparecem no levantamento financeiro realizado pelos investigadores, embora em situações jurídicas diferentes.
O órgão encarregado de fiscalizar a legalidade das despesas públicas de Mato Grosso enfrenta uma pergunta inevitável: quem fiscalizava os pagamentos realizados dentro da própria instituição?
As investigações continuam e os fatos ainda dependem de esclarecimento. Os conselheiros citados têm direito à presunção de inocência, ao contraditório e à ampla defesa. O recebimento dos créditos bancários não significa, por si só, participação comprovada em corrupção ou desvio de recursos públicos.