Polícia
DOIS ESCÂNDALOS, MILHÕES SOB SUSPEITA E O TCE-MT NO OLHO DO FURACÃO: CONSELHEIROS VOLTAM À MIRA DA PF
Da Operação Malebolge à Tomada de Contas, a história do Tribunal de Contas é novamente sacudida por investigações milionárias; Sérgio Ricardo acaba preso, outros três conselheiros são afastados e até o aposentado Valter Albano aparece entre os investigad
O Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), instituição criada para fiscalizar o dinheiro público, enfrenta mais um dos capítulos mais explosivos de sua história. Nove anos depois da Operação Malebolge, que investigou suspeitas de pagamento de R$ 53 milhões em propinas a cinco conselheiros, a Polícia Federal voltou à Corte e colocou novamente seus integrantes no centro de uma investigação de proporções milionárias.
Desta vez, a Operação Tomada de Contas, deflagrada na quinta-feira (29 de outubro), resultou na prisão preventiva do presidente do tribunal, Sérgio Ricardo de Almeida, no afastamento de outros três conselheiros em exercício — Guilherme Maluf, José Carlos Novelli e Alisson Carvalho de Alencar — e na imposição de medidas cautelares ao conselheiro aposentado Valter Albano da Silva.
Os números impressionam. Segundo informações da investigação divulgadas pela imprensa, incluindo o jornal A Gazeta, a Polícia Federal identificou pagamentos milionários realizados por meio de ordens bancárias avulsas, fora da folha salarial convencional.
Entre janeiro e outubro de 2025, sete conselheiros receberam aproximadamente R$ 48,4 milhões em créditos bancários, enquanto o Portal da Transparência registrava cerca de R$ 2,2 milhões em remunerações ordinárias. A origem, a natureza e a legalidade das movimentações são objeto de investigação.
O dinheiro, os conselheiros e a folha paralela
A decisão do ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), revelou movimentações financeiras expressivas atribuídas a integrantes da cúpula do TCE-MT.
Sérgio Ricardo aparece com aproximadamente R$ 15,4 milhões em créditos investigados. Guilherme Maluf teria recebido R$ 10,6 milhões; José Carlos Novelli, R$ 8,8 milhões; e Valter Albano, R$ 6,6 milhões.
Também aparece na investigação Alisson Carvalho de Alencar, com R$ 8,1 milhões em pagamentos analisados. À época das movimentações, ele ainda ocupava o cargo de procurador de Contas, antes de assumir a cadeira de conselheiro em dezembro de 2025.
Os investigadores apuram se parte desses recursos integrava uma estrutura de pagamentos paralelos, supostamente abastecida por irregularidades em contratos administrativos e favorecimento de fornecedores.
Os valores representam movimentações sob investigação, não quantias integralmente comprovadas como produto de crimes.
Valter Albano: da Malebolge à nova operação
Um dos personagens que mais chamam atenção nessa história é o conselheiro aposentado Valter Albano.
Integrante do grupo afastado durante a Operação Malebolge, em setembro de 2017, ele voltou a aparecer no centro de questionamentos após a nova ofensiva da Polícia Federal.
Segundo a investigação, Albano recebeu R$ 6.617.904,08 em créditos bancários no período analisado. Desse montante, aproximadamente R$ 4,9 milhões teriam sido transferidos por meio de 55 ordens bancárias avulsas.
Embora tenha se aposentado em dezembro de 2025, Valter Albano continuava exercendo atividades vinculadas a uma comissão permanente do tribunal.
Com a Operação Tomada de Contas, o STJ determinou restrições à sua atuação na instituição e à sua saída do país. Ele não foi preso.
Malebolge: a delação de R$ 53 milhões que abalou Mato Grosso
A história remonta a setembro de 2017, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Malebolge, desdobramento da Operação Ararath.
Na ocasião, cinco conselheiros foram afastados: Sérgio Ricardo, José Carlos Novelli, Antônio Joaquim Moraes Rodrigues Neto, Waldir Júlio Teis e Valter Albano.
A investigação nasceu de declarações do ex-governador Silval Barbosa, que afirmou em colaboração premiada que conselheiros teriam exigido vantagens indevidas para não criar obstáculos à execução de obras do Governo de Mato Grosso, incluindo empreendimentos relacionados à Copa do Mundo de 2014.
O suposto esquema envolvia R$ 53 milhões.
Entretanto, um fato decisivo integra esse histórico: em dezembro de 2022, o STJ determinou o arquivamento daquela investigação, após manifestação do Ministério Público Federal de que não haviam sido reunidos elementos suficientes para o oferecimento de denúncia contra os cinco conselheiros.
A decisão encerrou aquele procedimento, que não deve ser confundido com as novas suspeitas investigadas em 2026.
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A nova operação também recoloca em evidência os nomes dos sete integrantes do atual plenário do Tribunal de Contas.
Novas revelações colocam sob escrutínio os pagamentos milionários recebidos pelos conselheiros Antônio Joaquim Moraes Rodrigues Neto, Gonçalo Domingos de Campos Neto e Waldir Júlio Teis. As informações, divulgadas na edição deste domingo (1º de novembro) do jornal A Gazeta, ampliam a dimensão do escândalo que abalou a Corte de Contas de Mato Grosso.
De acordo com documentos da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República (PGR), divulgados pela imprensa, os três receberam, juntos, R$ 6.884.421,25 milhões do TCE-MT entre janeiro e outubro de 2025. Parte dos créditos foi realizada fora das datas habituais de pagamento, enquanto outras transferências utilizaram modalidades bancárias que despertaram a atenção dos investigadores.
A revelação amplia o alcance do escândalo que atingiu a Corte de Contas na quinta-feira (29), quando foi deflagrada a Operação Tomada de Contas, autorizada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
De fiscalizadores a investigados: a crise de credibilidade
O contraste é devastador para a imagem institucional. De um lado, um tribunal constitucionalmente encarregado de examinar gastos, contratos e a aplicação de recursos públicos. Do outro, investigações policiais sobre a própria movimentação financeira da instituição.
A operação de 2026 mobilizou mais de 180 policiais federais e cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 26 de busca e apreensão em três estados.
Além dos conselheiros, servidores, assessores e integrantes da estrutura administrativa passaram a ser investigados por suspeitas que incluem crimes contra a Administração Pública, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
A prisão preventiva, os afastamentos e as suspeitas financeiras não representam condenações. Os investigados têm direito à defesa e à presunção de inocência.
Mas a pergunta que fica para a sociedade mato-grossense é inevitável: quem fiscaliza os fiscalizadores?
Depois de duas operações federais de enorme repercussão, separadas por quase uma década, o TCE-MT enfrenta novamente o desafio de explicar movimentações milionárias e recuperar a confiança da população.
Porque, quando o órgão que deveria vigiar as contas públicas passa a ter suas próprias contas examinadas pela Polícia Federal, a crise ultrapassa os gabinetes e atinge a credibilidade do controle público em Mato Grosso.