Política
Índios Kayapós Mẽkrãgnõtires fecham a BR-163 em protesto contra ferrovia e falta de recurso
Dezenas de índios Kayapós Mẽkrãgnõtire fecharam nesta terça feira, 18, a BR-163 no quilômetro 332, na região de Novo Progresso(PA), e cerca de 1.100 KM de Cuiabá
18/08/2020
Atualmente, segundo o Instituto Kabu, existem 20 dragas de garimpos ilegais dentro da TI Baú, e estudos apontam a contaminação dos rios que cortam os territórios indígenas.
Além disso, os indígenas temem os impactos da suspensão na fiscalização justamente no início do período de seca e diante do aumento das queimadas na região. O município de Novo Progresso registrou recordes de queimadas em 2019, após protagonizar o que ficou conhecido como “dia do fogo”.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o número de focos de calor no entorno das TIs Baú e Megkranoti aumentou 197% entre os meses de junho e julho, passando de 211 para 627. O período de maior preocupação começa em agosto e vai até o fim de outubro, lembra Doto.
Outra cobrança dos Kayapó diz respeito, segundo Doto, à “promessa não cumprida” de consulta prévia aos povos indígenas no processo de concessão da Ferrogrão, ferrovia cujo traçado projetado passa a 50 km da TI Baú.
“Tudo isso agravou esse problema para os Kayapó que decidiram, mesmo com a pandemia, fazer esse bloqueio. Fizemos isso pra chamar a atenção do governo”, disse Doto.
Horas depois, ele foi surpreendido ao ser citado como réu pela decisão de reintegração de posse emitida pela Justiça Federal.
Mesmo após a notificação, ele afirmou que o grupo pretende resistir até ser ouvido pela Fundação Nacional do Índio (Funai), pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama).
A reportagem acionou a Funai, Ibama e Dnit, mas não obteve resposta até a conclusão deste texto.
Em meio à pandemia Esse cenário de conflito se agrava nas TIs Baú e Mengkranoti no pior momento possível, afirma a liderança Mudjere Kayapó Mengkranoti: no início do período de seca, com tendência de aumento no número de queimadas e do desmatamento, e em meio a uma pandemia de Covid-19 que está avançando sobre as comunidades indígenas.
Até segunda, 403 casos confirmados e quatro óbitos (todos anciãos) foram registrados nas duas TIs. Os óbitos, segundo Mudjere, são de indígenas da TI Baú e três deles ocorreram nas próprias aldeias. Apenas um indígena morreu no Hospital Municipal de Novo Progresso, que não possui leito de UTI.
“O inimigo do índio está em todo lado e um deles é invisível, por isso estamos buscando nos proteger. A maioria dos casos e das mortes estão acontecendo nas aldeias onde vivem indígenas que são atraídos pelos garimpeiros e, quando voltam pra aldeia, acabam contaminando todo mundo. Por isso que precisamos proteger nossos territórios dos invasores”, disse.
Ele afirmou que os Kayapó receberam da Funai apenas 700 cestas básicas para as mais de 400 famílias que vivem nos territórios em seis meses de pandemia. Os próprios indígenas, por meio de campanhas, arrecadaram mais 200 cestas básicas, além de material de higiene e redes de pesca para garantir que não precisassem ir aos centros urbanos.
Mudjere também cobrou uma estrutura de assistência médica aos indígenas, que atualmente não contam com transporte aéreo nem fluvial para a transferência para leitos de UTI em hospitais nos centros urbanos e precisam esperar até quatro dias pelo transporte terrestre.
“Muitos não vão poder esperar”, alerta.
De acordo com o último boletim epidemiológico da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), de 15 de agosto, o número de casos confirmados de Covid-19 entre indígenas dos nove estados amazônicos chegou a 18.761, com 575 mortes em 125 povos indígenas diferentes.
O Pará lidera o número de casos entre os indígenas, com 4.568, acima de Amazonas (4.287), Roraima (2.490), Maranhão (1.670) e Acre (1.522). Enquanto isso, o Amazonas lidera no número de óbitos, com 188 confirmados, mais que Mato Grosso (102), Pará (86) e Roraima (70).
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