Política

Diretor-geral da PF diz que retirou credenciais de agente dos EUA que atua no Brasil e cita reciprocidade

Andrei Rodrigues afirmou ao Estúdio i, da Globonews, que policial americano que trabalhava em cooperação com a PF em Brasília não terá mais acesso ao prédio ou a banco de dados brasileiros

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM G1 22/04/2026
Diretor-geral da PF diz que retirou credenciais de agente dos EUA que atua no Brasil e cita reciprocidade
O diretor-geral da Polícia Federal , Andrei Rodrigues, disse nesta quarta-feira (22) que retirou as credenciais de trabalho de um funcionário do governo dos Estados Unidos | Diário do Centro do Mundo

O diretor-geral da Polícia Federal , Andrei Rodrigues, disse nesta quarta-feira (22) que retirou as credenciais de trabalho de um funcionário do governo dos Estados Unidos, um agente de imigração, que atua na sede da PF em Brasília.

Foi uma resposta à ação do governo Trump contra o delegado da PF que atuou na prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem, que foi condenado por golpe de Estado e fugiu para os EUA.

"Eu retirei, com pesar, as credenciais de um servidor dos EUA pelo princípio da reciprocidade", disse Rodrigues durante entrevista exclusiva ao Estúdio i , da GloboNews.

🔎A reciprocidade é um princípio da diplomacia que prevê que um país pode adotar uma medida equivalente em relação a outro.

    Até a retirada das credenciais, o policial americano trabalhava dentro de uma unidade da PF na capital federal.

    O diretor da PF explicou que, sem as credenciais, o agente perde acesso à unidade em que trabalhava, em Brasília, e a bases de dados usadas para as cooperações entre as polícias dos EUA e do Brasil.

    Segundo Rodrigues, foi o mesmo que aconteceu com o delegado brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava em Miami e que, na segunda-feira (20), teve ordem para deixar os EUA, segundo o governo daquele país.

    O diretor da PF negou que o brasileiro tenha sido expulso. "Não há nenhuma expulsão de funcionário brasileiro. Ele voltou por determinação minha, em razão desse episódio, para que nós consigamos esclarecer se há um processo formal no Departamento de Estado, no próprio ICE, seja onde for."

    Andrei Rodrigues esclareceu que o agente americano não será expulso do Brasil. "Tanto o Marcelo Ivo não foi expulso dos Estados Unidos, como nós, Polícia Federal, não vamos expulsar ninguém. Não é nosso papel".

    "O Itamaraty, também no campo da reciprocidade diplomática, tem feito reuniões, contatos. É preciso que seja feita alguma formalização da nossa contraparte para que as coisas aconteçam", completou.

    O diretor da PF disse que não gostaria que a situação estivesse acontecendo. "À medida que uma agência tira as credenciais do meu policial, eu retiro as credenciais do policial norte-americano que está aqui, e faço com muito pesar."

    Rodrigues afirmou que o papel do delegado Marcelo Ivo na prisão de Ramagem seguiu o acordo de cooperação estabelecido para a atuação de agentes da PF nos EUA.

    "Não há a menor sombra de dúvida de que essa participação da PF é alicerçada na cooperação internacional, nos acordos que temos com os Estados Unidos. São mais de uma dezena de acordos que permitem a atuação dos nossos policiais no exterior."

    O diretor da PF explicou que Marcelo Ivo trabalhava repassando informações ao ICE, a polícia migratória dos EUA. Rodrigues classificou o delegado como um "exemplar servidor", que localizou 49 foragidos da Justiça brasileira nos EUA e ajudou em 56 deportações.

    Delegado brasileiro deixa os Estados Unidos

    Na segunda, os Estados Unidos ordenaram que um delegado brasileiro envolvido na prisão de Ramagem deixasse o país.

    Sem citar nomes, o governo norte-americano afirmou em uma rede social que uma autoridade brasileira tentou "contornar pedidos formais de extradição" para promover “perseguições políticas”.

    A autoridade citada é o delegado Marcelo Ivo.

    Entenda a cronologia do caso e como foi o impasse

    📆Março de 2023

    O delegado Marcelo Ivo de Carvalho, da PF, foi nomeado para atuar como oficial de ligação em Miami, em missão junto ao ICE, com duração inicial de dois anos.

    📆2023 a 2025

    O delegado permaneceu nos Estados Unidos, cumprindo a missão. Entre as principais atribuições estavam a colaboração com a identificação e prisão de foragidos da Justiça brasileira.

    📆Março de 2025

    O governo brasileiro publicou uma portaria prorrogando a permanência dele na missão por mais um ano.

    📆Setembro de 2025

    Ramagem deixou o Brasil de forma clandestina pela fronteira do Brasil com a Guiana. Ele foi condenado a 16 anos, um mês e 15 dias de prisão, em regime inicial fechado, por participação na tentativa de golpe de Estado orquestrada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

    📆Dezembro de 2025

    A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados cassou o mandato de Ramagem, em razão da condenação.

    📆17 de março de 2026

    A PF nomeou a delegada Tatiana Alves Torres para assumir o posto de oficial de ligação em Miami, em substituição a Marcelo Carvalho. Segundo o governo, tratava-se de uma missão transitória, com duração de dois anos, incluindo mudança de sede e possibilidade de acompanhamento de dependentes. A substituição foi tratada como parte da dinâmica regular de missões no exterior.

    📆13 de abril de 2026

    Ramagem foi preso em Orlando, nos EUA, por questões migratórias, segundo a Polícia Federal. No mesmo dia, foi levado a um centro de detenção no Condado de Orange, e depois foi solto.

    📆15 de abril de 2026

    O ex-deputado deixou a prisão nos Estados Unidos.

    📆16 de abril de 2026

    Ramagem publicou um vídeo nas redes sociais em que agradeceu às autoridades norte-americanas pela soltura. "Eu entrei nos Estados Unidos, em setembro do ano passado, de forma perfeitamente regular, passaporte válido, visto válido, sem condenação nenhuma. Em seguida entramos com o pedido de asilo [...] Nós cumprimos os requisitos, estamos dentro de todos os procedimentos e fases, o que nos confere o status de permanência regular nos Estados Unidos", afirmou.

    📆16 de abril de 2026

    O ICE disse à PF que Ramagem poderá aguardar em liberdade nos EUA a conclusão de um processo de pedido de asilo. Interlocutores da PF afirmaram que a mensagem do ICE foi repassada em uma reunião. O encontro já estava marcada antes mesmo de Ramagem ser solto. O objetivo era discutir o caso e evitar que ele fosse libertado, o que acabou acontecendo antes da reunião.

    📆20 de abril de 2026

    Os Estados Unidos determinaram que um delegado brasileiro envolvido na prisão de Ramagem deixe o país. A medida é divulgada pelo Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental.

    Sem citar nomes, o governo americano afirmou em uma rede social que uma autoridade brasileira tentou “contornar pedidos formais de extradição” para promover “perseguições políticas”.

    "Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro em questão deixe o país por tentar fazer isso", diz o texto.

    📆21 de abril de 2026

    O presidente Lula comentou o caso, durante viagem à Europa. Disse que não sabia o que aconteceu no caso do delegado brasileiro envolvido na prisão de Ramagem e afirmou que poderia usar reciprocidade contra um americano no Brasil.

    "Fui informado hoje de manhã, acho que se houve um abuso americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o dele no Brasil."

    📆21 de abril de 2026

    A encarregada de Negócios interina da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, Kimberly Kelly, é convocada a dar explicações ao Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty).

    De acordo com relatos obtidos pela GloboNews, o encontro durou cerca de uma hora, e Kimberly Kelly se reuniu com Christiano Figueiroa, atual diretor do Departamento de América do Norte do ministério.