Política
A 21 dias das urnas, Janaína refaz chapa e escolhe empresário citado em investigações nacionais
Danilo Trento, novo primeiro suplente, foi diretor da Precisa Medicamentos e teve indiciamento recomendado pela CPI da Pandemia; nova composição deixa pouco tempo para o eleitor conhecer os escolhidos
A 21 dias das eleições de 4 de outubro, a candidata ao Senado Janaína Riva (MDB) apresenta aos eleitores uma chapa novamente reformulada. Os empresários Danilo Berndt Trento e Rafael Torres foram anunciados no sábado (12), quando faltavam 22 dias para a votação, como primeiro e segundo suplentes, respectivamente.
A nova composição representa a terceira reformulação da chapa de Janaína durante o processo eleitoral, agora com a substituição simultânea do primeiro e do segundo suplentes.
Além da sucessiva troca de nomes, a escolha de Danilo Trento acrescenta uma questão de interesse público: o novo primeiro suplente foi diretor de Relações Institucionais da Precisa Medicamentos, empresa envolvida nas negociações para a aquisição da vacina indiana Covaxin pelo Ministério da Saúde durante a pandemia.
Chapa sofreu mudanças sucessivas
A primeira suplente anunciada por Janaína foi a delegada aposentada Ana Cristina Feldner. Posteriormente, ela deixou a composição e foi substituída pelo ex-vereador de Salto do Céu e presidente estadual do PRD, Aluizio Lima.
A mudança terminou em rompimento político. Feldner acusou Janaína de violência política de gênero e afirmou ter sido desrespeitada. A candidata negou a acusação e declarou que a participação da ex-delegada teria sido apresentada desde o início como temporária.
Na formação seguinte, Aluizio assumiu a primeira suplência, enquanto o vereador de Rondonópolis Ibrahim Zaher (MDB) permaneceu como segundo suplente.
Aluizio e Ibrahim acabaram formalizando suas renúncias perante a Justiça Eleitoral. Ibrahim informou que saiu para se dedicar à coordenação de outras campanhas. Em seguida, Danilo Trento e Rafael Torres foram escolhidos para as duas vagas.
A legislação eleitoral admite substituições dentro dos prazos estabelecidos. Isso, contudo, não impede que os eleitores questionem os motivos das mudanças e os critérios utilizados na escolha dos novos integrantes.

O histórico de Danilo Trento
Danilo Trento foi diretor de Relações Institucionais da Precisa Medicamentos, que participou das negociações para o fornecimento de 20 milhões de doses da Covaxin ao Ministério da Saúde.
O contrato, estimado em aproximadamente R$ 1,6 bilhão, não resultou na entrega das vacinas e foi cancelado em meio aos questionamentos e às investigações realizadas durante a pandemia.
Trento prestou depoimento à CPI da Pandemia em setembro de 2021. Amparado por decisão do Supremo Tribunal Federal, exerceu o direito constitucional de permanecer em silêncio diante de perguntas cujas respostas pudessem incriminá-lo.
Na mesma ocasião, a comissão aprovou a quebra de seus sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático.
No encerramento dos trabalhos, o relatório aprovado pela CPI recomendou seu indiciamento por suposta fraude em contrato no contexto das apurações sobre a Covaxin.
A recomendação de uma CPI não equivale a denúncia do Ministério Público ou condenação judicial. Cabe aos órgãos competentes analisar os elementos encaminhados e decidir sobre o prosseguimento de eventuais investigações e ações.
As fontes consultadas para esta reportagem não demonstram a existência de condenação judicial definitiva de Trento relacionada ao caso Covaxin.
Apurações sobre o INSS
O nome de Trento voltou ao noticiário nacional nas apurações sobre descontos indevidos em benefícios do INSS.
Em outubro de 2025, a CPMI do INSS aprovou sua convocação. Conforme informação divulgada pela Agência Senado, ele era investigado pela Polícia Federal no inquérito relacionado ao caso.
Em março de 2026, um relatório que continha propostas de indiciamento foi rejeitado pelo colegiado. Assim, não é correto afirmar que aquela comissão tenha aprovado o indiciamento de Trento.
A existência de investigação, convocação parlamentar ou recomendação formulada por CPI não significa culpa. O histórico público, entretanto, justifica que o novo primeiro suplente esclareça aos eleitores o andamento e o desfecho dos procedimentos.
Suplente pode exercer o mandato
A suplência não é uma função meramente decorativa. O primeiro suplente pode ocupar a cadeira no Senado em hipóteses como licença, afastamento, nomeação do titular para outra função ou vacância do cargo.
O substituto poderá participar de votações de leis nacionais, indicações de autoridades, CPIs e processos de impeachment. Por isso, quem vota no titular também entrega poder político aos seus suplentes.
Com apenas 21 dias até a eleição, Danilo Trento e Rafael Torres terão pouco tempo para apresentar suas trajetórias e propostas aos eleitores dos 142 municípios de Mato Grosso.

Algumas perguntas permanecem: Por que os suplentes anteriores deixaram a chapa? Quais critérios orientaram a escolha dos novos nomes? Qual foi o desfecho das apurações relacionadas à Covaxin? Qual é a situação de Trento na investigação referente ao INSS? Quais propostas os dois suplentes defendem para Mato Grosso? Que compromissos assumiram ao integrar a chapa?
Janaína Riva tem o direito de reorganizar sua candidatura nos limites da legislação. A população também possui o direito de conhecer os escolhidos, cobrar explicações e avaliar se a nova composição representa um projeto consolidado para um mandato de oito anos.
O Página 12 mantém espaço aberto para que Janaína Riva, Danilo Trento, Rafael Torres e o MDB apresentem suas versões, esclareçam as mudanças e respondam aos questionamentos desta reportagem.