Política

PF diz estar pronta para entregar registros do celular de Vorcaro: a disputa pelo aparelho do banqueiro no STF

No comunicado, a PF afirma que possui "plenas condições técnicas para produzir e encaminhar cópia idêntica da extração aos demais gabinetes que a solicitaram, observadas as determinações da Corte e as cautelas de sigilo aplicáveis"

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM BBC 13/09/2026
PF diz estar pronta para entregar registros do celular de Vorcaro: a disputa pelo aparelho do banqueiro no STF
Os ministros André Mendonça, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin, do STF | STF

A Polícia Federal informou neste domingo (13/09) ao presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, que o material original contido no celular do banqueiro Daniel Vorcaro permanece nas dependências da instituição "dentro de cadeia de custódia formalmente documentada, com os respectivos lacres íntegros e mecanismos de verificação de integridade digital".

No comunicado, a PF afirma que possui "plenas condições técnicas para produzir e encaminhar cópia idêntica da extração aos demais gabinetes que a solicitaram, observadas as determinações da Corte e as cautelas de sigilo aplicáveis".

E diz que a cópia dos dados extraídos encaminhada em março deste ano ao ministro André Mendonça não corresponde ao material original, que "jamais deixou a custódia da instituição".

Os embates entre os ministros em relação ao acesso aos documentos obtidos pela PF ao longo das investigações sobre o caso ocorre às vésperas de uma sessão marcada para a próxima terça-feira (15/09) para discussão da grave crise que a Corte atravessa.

Também no domingo, Mendonça disse em despacho que "todo o material utilizado para o julgamento da próxima terça-feira encontra-se disponível, na íntegra, a todos os ministros e que "a inserção de elementos adicionais, que não constam dos autos até o presente momento", referindo-se ao restante do conteúdo que consta no celular de Vorcaro.

O ministro diz que a liberação do material "somente contribuiria para tumultuar o julgamento, bem como colocaria em risco todo o seguimento e êxito das investigações".

Após a determinação do fim do sigilo dos registros relacionados ao banco na quinta-feira (10) por Fachin, o relator do caso, Mendonça liberou o acesso a parte dos documentos.

Em um ofício encaminhado na semana passada a Fachin, o ministro Alexandre de Moraes apontou uma "escolha seletiva" de Mendonça na retirada do sigilo. O ministro também pediu a liberação imediata de todo e qualquer documento relacionado ao caso.

Em dois ofícios separados, Moraes e Cristiano Zanin também solicitaram ao presidente do STF acesso ao conteúdo completo extraído do celular de Vorcaro, um iPhone 17 Pro apreendido pela PF.

Mendonça liberou, na noite de sexta, o sigilo de outros processos envolvendo o Master, mas informou a Fachin que só possuía apenas uma cópia de segurança em disco rígido criptografado, que permanece lacrada.

No sábado (12/09), o ministro Gilmar Mendes reforçou o pedido para que todos os ministros tenham acesso integral à cópia dos dados extraídos do celular, em mais um ofício enviado a Fachin.

No documento, o decano do STF endossa os argumentos apresentados por Zanin e solicita que, caso Mendonça não disponibilize os dados, a presidência da Corte requisite "com urgência" à PF o envio das mídias diretamente aos gabinetes.

Celular com imagem do Banco Master na tela

Crédito,AFP via Getty Images

O embate entre Moraes e Mendonça

Na semana passada, Mendonça protagonizou um embate com Moraes no âmbito dessas investigações.

Em 1º de setembro, através da petição 16.662, Mendonça levantou o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) com indícios de que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teria pedido conselhos e trocado informações com Moraes.

Dois dias depois, Moraes rebateu e retirou o sigilo de relatórios da inteligência da PF sobre supostas condutas irregulares de Mendonça, o qual teria agido contra Moraes e outros colegas de tribunal.

Até então relator do polêmico Inquérito das Fake News, Moraes também havia pedido a inclusão de Mendonça nesta investigação.

Na quarta-feira (09/09), Fachin decidiu tirar de Moraes a relatória deste inquérito e agendar para 15 de setembro a sessão plenária para tratar do caso.

Diante da crise que se abriu no STF com a revelação das mensagens e as decisões subsequentes de Mendonça, Moraes e do ministro Flávio Dino, é possível que o julgamento seja ampliado para discutir outros vários da "guerra" entre os ministros, explica Emílio Peluso, professor de direito constitucional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O que se sabe sobre o celular de Vorcaro

Ex-controlador do Banco Master, Vorcaro foi preso em novembro de 2025. Ele é investigado por suspeita de cometer fraudes financeiras estimadas em R$ 12,2 bilhões.

Por meio de trocas de mensagens e documentos extraídos do celular do ex-banqueiro, a PF levantou uma série de suspeitas de irregularidades.

O conteúdo do aparelho é relevante em duas frentes distintas: a apuração dos supostos crimes financeiros ligados ao caso Master e as relações de Vorcaro com autoridades políticas e do Judiciário.

No caso do financiamento do filme Dark Horse — cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro que acabou se tornando parte das investigações — os investigadores afirmam ter encontrado conversas, comprovantes e registros que indicariam a participação direta de Vorcaro na liberação de recursos para a produção e na discussão sobre a forma como esse dinheiro seria movimentado nos Estados Unidos.

Os documentos liberados por Mendonça na noite de sexta-feira apontam especialmente para a relação com o senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL), descrito pela PF como interlocutor direto nas tratativas para obtenção de recursos para o filme.

O celular também continha mensagens — tornadas públicas após uma decisão do ministro André Mendonça — que teriam sido enviadas por Vorcaro a um contato salvo com o nome Alexandre de Moraes.

Há também conversas de Vorcaro com funcionários do Master e pessoas ligadas à família de Moraes.

Diálogos envolvendo o senador Jaques Wagner (PT-BA) também dão "robustos indícios" de crimes de corrupção ativa e passiva e lavagem de ativos, segundo um relatório da PF cujo sigilo foi retirado nesta sexta.