Política
Fachin dá 24 horas para que Mendonça libere mais documentos do caso Master em meio a críticas sobre 'seletividade'
Fachin também determinou que Mendonça envie aos outros ministros todos os procedimentos vinculados à petição15.556
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, deu um prazo de 24 horas para que o ministro André Mendonça levante o sigilo de mais documentos vinculados ao caso do Banco Master.
A decisão atende a um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) nesta sexta-feira (11/9) e ocorre em meio a uma pressão crescente para que todo o sigilo do caso seja retirado, além de críticas à suposta "seletividade" de Mendonça na divulgação do material.
Segundo a PGR, os documentos tornados públicos por Mendonça na quinta-feira (10/9) não incluíam grande parte dos procedimentos relacionados à investigação mais ampla da Operação Compliance Zero — o que poderia acabar comprometendo o objetivo de transparência buscado por Fachin ao pedir o levantamento do sigilo.
Fachin também determinou que Mendonça envie aos outros ministros todos os procedimentos vinculados à petição15.556.
A pet 15.556 é a raiz da investigação do Master e consiste no núcleo original da Operação Compliance Zero, que apura um suposto esquema de fraudes financeiras e lavagem de dinheiro envolvendo o Banco Master e seu dono, Daniel Vorcaro.
Sua importância decorre do fato de envolver acusações contra parlamentares e o ministro Alexandre de Moraes. Mendonça é o relator do caso no STF.
"Acolho o pedido feito pelo Vice-Procurador-Geral da República, titular da ação penal, para solicitar que o e. Ministro André Mendonça promova, em até 24h, a remessa, em HD próprio, a esta Presidência e aos Gabinetes dos eminentes Ministros, de todos os procedimentos contidos ou relacionados à Pet 15.556 e à denominada "Operação Compliance Zero" (Inq 5026), bem como o levantamento do sigilo da Pet 15.556 (e dos procedimentos nela contidos ou a ela relacionados), ressalvadas exclusivamente as diligências em andamento ou a serem realizadas, para os quais se pudesse antever possíveis prejuízos à sua efetividade", determinou o presidente do STF.
Em outro despacho também nesta sexta, Fachin determinou que Mendonça se manifeste sobre o pedido do ministro Cristiano Zanin, que solicitou acesso à íntegra dos dados apreendidos no celular de Daniel Vorcaro para permitir apreciação "completa e necessária".
Mais cedo, o ministro Alexandre de Moraes havia enviado um ofício a Fachin pedindo que todos os documentos e procedimentos ligados à investigação fossem tornados públicos.
Ele afirmou que o ministro André Mendonça fez uma "escolha seletiva" na retirada do sigilo de documentos do caso Master.
Moraes também solicitou o julgamento conjunto da petição que trata das mensagens supostamente trocadas entre ele e o banqueiro Daniel Vorcaro com o procedimento que aponta supostas irregularidades na atuação de Mendonça em casos no STF.
Na quinta-feira, Fachin pediu que Mendonça retirasse o sigilo de documentos relacionados ao Banco Master. No pedido, ele fez a ressalva de que dados cujo sigilo fosse considerado "imprescindível" para as investigações não precisariam ser divulgados. Com isso, Mendonça poderia manter parte dos documentos em sigilo.
Moraes alega, contudo, que Mendonça "selecionou subjetivamente o levantamento do sigilo, tornando público somente o que entendeu conveniente".
Segundo ele, das 4.514 peças que constam no sistema para os 15 procedimentos relacionados ao caso, apenas 4.334 foram tornadas públicas.
"Houve o levantamento do sigilo de 15 (quinze) procedimentos, o que não corresponde a totalidade dos procedimentos contidos ou relacionados à PET 15.556", escreveu Moraes.
"A seletividade, entretanto, foi ainda maior, pois nesses 15 (quinze) procedimentos contidos ou relacionados à PET 15.556 o sigilo levantado foi parcial, excluindo 180 (cento e oitenta) documentos e, consequentemente, dificultando a análise probatória", acrescentou.

Crédito,Getty Images
Moraes também questionou o fato de apenas a petição 16.662 ter sido incluída na pauta do STF em sessão convocada por Fachin para a próxima terça-feira (15/9) — deixando de fora a petição 16.704 — e solicitou julgamento conjunto dos dois procedimentos.
A PET 16.662, que teve origem na petição 15.556, se refere as trocas de mensagens entre Moraes e o Vorcaro. Já a PET 16.704 envolve relatórios que apontam supostas irregularidades de Mendonça na condução de casos no STF, entre eles o do Banco Master.
Citando uma decisão anterior de Fachin, Moraes afirma que as duas petições "evidenciam relação de conexão e continência" e que a análise separada poderia gerar "risco concreto de decisões contraditórias e de tumulto processual".
"O julgamento fracionado das PETs 16.704 e 16.662, cuja relação de conexão e continência foi reconhecida em decisão de Vossa Excelência, somado à escolha seletiva do levantamento somente de parte dos procedimentos e o direcionamento subjetivo de um dos interessados de quais documentos de cada PET deverão ser entregues aos Ministros julgadores, com a supressão de 180 (cento e oitenta) documentos, obstaculiza gravemente a análise probatória", destaca Moraes.
Foi solicitado por Moraes:
- julgamento conjunto das PET 16.704 e PET 16.662 "para evitar "risco concreto de decisões contraditórias e de tumulto processual";
- levantamento de todo e qualquer sigilo, sem exceção, dos procedimentos contidos ou relacionados à PET 15.556, evitando-se escolha seletiva e direcionamento subjetivo e garantindo-se total isonomia e o respeito ao Devido Processo Legal, devendo a Diretoria de TI certificar quantos procedimento efetivamente existem;
- a intimação de todos os membros da magistratura citados, para que possam prestar informações e garantir as medidas necessárias para a defesa das prerrogativas do Poder Judiciário.
Leia também
ESCÂNDALO NO STF Os argumentos de Flávio Dino para reintegrar Andrei Rodrigues e Leandro Almada à PF CRISE NO STF Fachin se incomoda com nova crise e sinaliza cautela sobre plenário CRISE NO STF Com sessão cancelada, Fachin é pressionado por solução rápida ESCÂNDALO NO STF A linha do tempo da crise que abala o STF (com Vorcaro como estopim) DARK HORSE Mendonça homologa delação de empresário responsável por 'gerar' dinheiro vivo para Daniel Vorcaro OPERAÇÃO MEAK UP Dino proíbe Mario Frias de sair do Brasil sem autorização OPERAÇÃO MEAK UP Por que Mario Frias e a produtora do filme sobre Bolsonaro são alvo da PF FILME DARK HORSE Entenda as duas investigações sobre 'Dark Horse': uma envolve Daniel Vorcaro, e a outra, Mario Frias ESCÂNDALO NO STF Fachin é pressionado a fazer sessão fechada em julgamento de Moraes CRISE NO STF STF salvou a democracia brasileira, mas agora a está sufocando, diz The EconomistZanin pede acesso à íntegra do celular de Vorcaro

Crédito,Getty Images
Após Moraes apontar "seletividade" no levantamento do sigilo do caso Master, o ministro Cristiano Zanin enviou um ofício ao presidente do STF, Luiz Edson Fachin, pedindo acesso à íntegra dos dados apreendidos no celular do banqueiro Daniel Vorcaro.
Zanin pediu que o material seja disponibilizado em um HD específico, "para otimizar a análise", e argumentou que os dados já estão abrangidos pela decisão que determinou o levantamento do sigilo de informações e procedimentos relacionados à PET 15.556.
Segundo o ministro, o acesso ao material é necessário para permitir a "apreciação completa e necessária" do parecer emitido pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
A PGR pediu a nulidade do relatório e da investigação da Polícia Federal, solicitada por Mendonça, que apontaram uma suposta relação e a existência de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e Vorcaro.
O caso será analisado pelo STF na próxima semana.
O embate entre Moraes e Mendonça
Na semana passada, Mendonça protagonizou um embate com Moraes no âmbito dessas investigações.
Em 1º de setembro, através da petição 16.662, Mendonça levantou o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) com indícios de que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teria pedido conselhos e trocado informações com Moraes.
Dois dias depois, Moraes rebateu e retirou o sigilo de relatórios da inteligência da PF sobre supostas condutas irregulares de Mendonça, o qual teria agido contra Moraes e outros colegas de tribunal.
Até então relator do polêmico Inquérito das Fake News, Moraes também havia pedido a inclusão de Mendonça nesta investigação.
Na quarta-feira (9/09), Fachin decidiu tirar de Moraes a relatória deste inquérito e agendar para 15 de setembro uma sessão plenária para tratar do caso Master.
O advogado-geral da União, Jorge Messias, elogiou a decisão de Fachin.
"A publicidade é a regra da República. A transparência protege as instituições, assegura igualdade de tratamento aos envolvidos, clareia as escolhas dos cidadãos e permite que a sociedade conheça os fatos sem recortes, versões ou seletividades", afirmou Messias em suas redes sociais, citando que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já havia pedido a retirada do sigilo.