Cotidiano
Toga sob suspeita: juíza de MT é afastada após denúncias de blindagem em favor de marido acusado de feminicídio
Afastamento cautelar foi determinado pelo CNJ após reclamação do Ministério Público apontar suposta interferência funcional da magistrada em processos ligados à guarda da filha da vítima
A juíza Maria das Graças Gomes da Costa, titular da Vara Especializada da Infância e Juventude de Rondonópolis (215 km de Cuiabá), foi afastada cautelarmente do cargo por 90 dias por decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A medida foi adotada após o Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) encaminhar reclamação disciplinar apontando suposta interferência funcional da magistrada em processos judiciais envolvendo a guarda da filha de uma vítima de feminicídio.
O caso envolve o marido da juíza, Antenor Alberto de Matos Salomão, acusado de matar a bancária Leidiane Sousa Lima, de 34 anos, assassinada a tiros em 2023, em Rondonópolis. O crime gerou forte comoção social em Mato Grosso e segue sob apuração judicial.
De acordo com a reclamação apresentada ao CNJ, Maria das Graças teria tentado dificultar o cumprimento de uma decisão judicial que concedia a guarda da filha de Leidiane à avó materna. Conforme os autos administrativos, a magistrada teria retirado a criança do local onde a ordem judicial deveria ser cumprida, com o objetivo de impedir a efetivação da medida.
À época do crime, Antenor e a vítima mantinham uma disputa judicial pela guarda da filha, então com apenas dois anos de idade. As investigações apontam que o feminicídio teria sido premeditado, motivado pela não aceitação do fim do relacionamento por parte do acusado.
A apuração do Ministério Público também aponta que Antenor teria utilizado a arma funcional da magistrada, além de ter feito ligações telefônicas por meio do telefone institucional da juíza, inclusive logo após o assassinato. Os fatos são tratados como extremamente graves no âmbito administrativo e reforçaram a necessidade do afastamento cautelar.
O CNJ informou que o procedimento tramita sob sigilo e está sob análise da Corregedoria Nacional de Justiça.
Esta não é a primeira vez que o nome da magistrada aparece em procedimentos administrativos. Em 2009, quando atuava no Fórum de Sinop, a Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT) solicitou o afastamento da juíza após denúncias de que ela mantinha o companheiro dentro do gabinete. À época, Antenor era investigado pela Polícia de São Paulo por tentativa de abuso contra uma secretária.
Em nota divulgada naquele período, a OAB-MT relatou que advogados e servidores estariam sendo intimidados, classificando a situação como crítica.
Após a prisão de Antenor pelo feminicídio, em 2023, a juíza passou a ser monitorada pela Corregedoria do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). Em junho do ano passado, a sindicância foi convertida em Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD), mas Maria das Graças permaneceu no cargo até a decisão do CNJ que determinou seu afastamento.
O afastamento cautelar seguirá válido enquanto o PAD tramita no TJMT e no CNJ, podendo resultar em novas sanções disciplinares, a depender das conclusões das investigações administrativas.
Em nota, o advogado da magistrada afirmou que não há investigação criminal contra Maria das Graças, sustentando que o afastamento tem natureza exclusivamente administrativa. A defesa alegou ainda que a decisão causou “estranheza” e que não existem fatos que justifiquem qualquer imputação penal à juíza.
Leidiane Sousa Lima foi morta a tiros na Rua Santo Antônio, no bairro Parque São Jorge, quando saía de casa para trabalhar. Um homem em uma motocicleta sem placa se aproximou, efetuou os disparos e fugiu. A vítima morreu no local.
Leidiane deixou três filhos: dois meninos, de 13 e 8 anos, e uma menina, de 2 anos.