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Trump e Petro concluem reunião na Casa Branca para restabelecer relações bilaterais

O encontro entre os presidentes dos Estados Unidos e da Colômbia durou mais de duas horas e ocorreu a portas fechadas

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM EL PÁIS 03/02/2026
Trump e Petro concluem reunião na Casa Branca para restabelecer relações bilaterais
Gustavo Petro e Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca | Casa Branca

Após uma reunião que durou mais de duas horas, incluindo uma caminhada do presidente dos EUA, Donald Trump, e do presidente colombiano, Gustavo Petro, pela controversa galeria presidencial da Casa Branca, o encontro entre os dois líderes terminou em Washington nesta terça-feira, depois das 13h (horário local; seis horas a mais na Espanha continental).

O encontro entre os dois líderes, que tanto se desentenderam no último ano, ocorreu discretamente, a portas fechadas e sem a habitual recepção para chefes de Estado em visita oficial. Nesses casos, uma guarda de honra saúda os líderes visitantes, portando as bandeiras de ambos os países. Desta vez, como o encontro foi classificado como uma mera visita, a recepção foi muito mais discreta.

Como não se tratava de uma visita oficial, o presidente colombiano não entrou com sua comitiva pelo Pórtico Norte, a entrada reservada para dignitários estrangeiros. Tampouco foi recebido pela guarda de honra que acompanha líderes em visitas oficiais ou de Estado. Petro entrou pelo portão oeste, que liga a Ala Oeste da residência presidencial ao Edifício Eisenhower, onde se localiza a maior parte dos escritórios do Poder Executivo. Essa entrada é geralmente utilizada para visitas diplomáticas, não para as de chefes de Estado, embora haja exceções. No ano passado, o presidente sírio Ahmed al-Sharaa também entrou por esse portão.

As duas delegações ocuparam seus lugares na sala. Trump estava acompanhado pelo vice-presidente JD Vance, pelo secretário de Estado Marco Rubio e pelo senador republicano Bernie Moreno, de ascendência colombiana. Petro estava acompanhado por sua ministra das Relações Exteriores, Rosa Villavicencio, seu ministro da Defesa, Pedro Sánchez, e seu embaixador em Washington, Daniel García-Peña. A julgar pelas fotos divulgadas à imprensa, o clima da conversa era descontraído.

A chegada de Gustavo Petro à Casa Branca nesta terça-feira.Presidência da Colômbia

O encontro marca uma virada em um contexto de meses de crescente tensão entre os dois lados. Diversos analistas têm enfatizado nos últimos dias que, dado o histórico de desentendimentos e confrontos, o encontro pode oferecer uma oportunidade para reformular a relação bilateral, se conduzido com prudência, clareza de prioridades e disposição para o diálogo.

Diferentemente do passado, quando trocavam insultos nas redes sociais, ambos agora parecem dispostos a chegar a um entendimento. Na véspera do encontro, o presidente dos EUA enfatizou que, após a intervenção americana na Venezuela em 3 de janeiro, o tratamento que Petro lhes dispensou foi "muito amigável" e que esperava que a reunião fosse "muito boa".

“Petro talvez tenha sido o crítico mais ferrenho na América Latina das políticas de Trump sobre imigração, mudanças climáticas, Gaza, drogas e Venezuela. O fato de Trump ter concordado em recebê-lo na Casa Branca, numa tentativa de relançar as relações bilaterais, é uma oportunidade monumental, e ambos os líderes seriam negligentes se não a aproveitassem”, afirma Lee Schlenker, analista do Sul Global no think tank Quincy Institute for Responsible Statecraft .

O encontro para restabelecer as relações entre os dois líderes teve como foco principal o combate ao narcotráfico — que o governo Trump considera uma de suas principais prioridades de segurança nacional, juntamente com medidas contra a imigração ilegal. O chefe de Estado colombiano, cujo país realizará eleições presidenciais em maio, defende o confisco, a redução da demanda e projetos econômicos alternativos para os pequenos produtores de coca. Os Estados Unidos insistem na erradicação das plantações e no controle da oferta.

A Colômbia já fez concessões nessa área durante as negociações com Trump, concordando em retomar os bombardeios, as extradições e a pulverização de glifosato — ações extremamente sensíveis para este governo de esquerda. Diante dessa disposição, um acordo nessa área provavelmente será o mais viável.

Reunião entre Gustavo Petro e Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca.Presidência da República

A situação na Venezuela também é importante, um cenário que Petro conhece bem e para o qual já se ofereceu para mediar. A Colômbia é fundamental para garantir a segurança na fronteira, e seu papel pode ser significativo para pavimentar o caminho para a democracia. Além do interesse de Trump em consolidar a democracia na Venezuela, o republicano precisa de estabilidade para levar adiante seus planos econômicos no país. Questões energéticas e a possibilidade de abertura dos mercados em Caracas também estão na agenda.

Em meio às reuniões preparatórias, García-Peña explicou que o encontro vinha sendo planejado desde a ligação telefônica de 7 de janeiro, conversa na qual os dois líderes fizeram as pazes após meses de discussões acaloradas. Esse contato, disse ele, marcou um ponto de virada na relação bilateral e permitiu que concentrassem os preparativos para a visita com o objetivo de “garantir que tudo corra bem para ambos os países”. García-Peña reconheceu que se tratam de dois chefes de Estado que “tiveram e continuarão tendo divergências”, mas insistiu que, ao lado das divergências, sempre haverá “áreas para trabalho conjunto”.

Gustavo Petro e Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca esta manhã.Presidência da República

A relação entre os dois foi marcada por constantes confrontos ao longo do último ano, começando com uma troca pública de insultos depois que Petro declarou nas redes sociais que não aceitaria voos com cidadãos deportados enviados dos Estados Unidos. Isso culminou em outra série de insultos entre eles após a campanha militar dos EUA no Caribe contra supostos barcos de narcotráfico durante os meses de pressão sobre a Venezuela que antecederam a operação militar. Petro chamou Trump de “cúmplice do genocídio” na Faixa de Gaza, enquanto o presidente dos EUA o acusou de ser um chefão do narcotráfico, em meio a ameaças de tarifas recíprocas, suspensão da ajuda financeira à Colômbia e, mais recentemente, advertências de ataques militares contra o país sul-americano.

As tensões, que levaram Petro a temer um ataque iminente contra seu país, dissiparam-se repentinamente após o telefonema entre os dois em 7 de janeiro, a pedido do presidente colombiano. Após uma conversa de 55 minutos, na qual Petro dominou a discussão, o ocupante da Casa Branca mudou radicalmente o tom. O republicano passou a descrever como "uma grande honra falar com o presidente da Colômbia", que o havia contatado para "explicar a situação relativa às drogas e outras divergências".