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Petroleiros param de passar pelo Estreito de Ormuz em meio a ataques de Israel ao Líbano no 1º dia de cessar-fogo, diz mídia iraniana
Permitir a passagem de petroleiros por Ormuz foi um elemento fundamental do acordo Irã e EUA para interromper temporariamente o conflito
Petroleiros pararam de passar pelo Estreito de Ormuz nesta quarta-feira (8/4), primeiro dia de cessar-fogo da guerra no Irã, enquanto Israel faz "os maiores ataques" ao Líbano desde o início de sua operação terrestre, segundo a mídia iraniana.
Após a divulgação do fechamento, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que a informação é "falsa". Em coletiva de imprensa, ela afirmou que o que está sendo dito publicamente é diferente do que está sendo dito em privado — dizendo que houve um "aumento" no tráfego de navios nesta quarta.
Ela reiterou que a expectativa de Trump é de que o estreito seja aberto "imediatamente", acrescentando que foi comunicado ao presidente em caráter privado que é isso que está acontecendo.
Permitir a passagem de petroleiros por Ormuz foi um elemento fundamental do acordo Irã e EUA para interromper temporariamente o conflito.
A agência de notícias Fars, filiada à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), força de segurança de elite com ligação direta com o líder supremo do país, informou que, embora dois petroleiros tenham conseguido passar pelo estreito com permissão do Irã na manhã desta quarta, a passagem foi interrompida.
A Agência de Notícias da República Islâmica (IRNA) também relata que os navios foram impedidos de passar, com ambos os veículos de comunicação fazendo referência aos contínuos ataques de Israel ao Líbano.
Segundo o Ministério de Saúde do Líbano informou à agência Reuters, 89 pessoas morreram e mais de 700 ficaram feridas nos ataques de Israel desta quarta. Os hospitais de Beirute estão lotados.
A corretora de navios SSY confirmou ao BBC Verify, serviço de checagem da BBC, que embarcações no Golfo Pérsico receberam a seguinte mensagem:
"Atenção a todas as embarcações no Golfo Pérsico e no Mar de Omã. Esta é a Estação Naval da Guarda Revolucionária Islâmica. A travessia do Estreito de Ormuz permanece fechada e é necessária autorização da IRGC para navegar pelo estreito. Qualquer embarcação que tentar entrar no mar será alvejada e destruída."
Claire Grierson, chefe de pesquisa de navios-tanque da SSY, disse que a empresa está ciente de que as tripulações das embarcações ouviram essa mensagem em um canal de rádio usado para alertas marítimos internacionais.
O cessar-fogo de duas semanas foi acordado na terça-feira (7/4), com a condição de que o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz fosse reestabelecido.
É por essa via que passavam cerca de 20% do petróleo global até ela ser fechada pelo governo iraniano em retaliação aos ataques americanos e israelenses.
O acordo veio mais de um mês após EUA e Israel lançarem ataques coordenados contra o Irã e poucas horas depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçar que "uma civilização inteira morreria na noite de terça "para nunca mais ser ressuscitada" caso o Irã não reabrisse o Estreito de Ormuz.
O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, que vinha mediando as negociações, afirmou na manhã desta quarta-feira que o cessar-fogo passou a valer imediatamente.
Segundo Sharif, o cessar-fogo também passaria a valer no Líbano, onde Israel afirma estar em combate com o Hezbollah, partido político islâmico xiita e grupo paramilitar apoiado pelo Irã.
No entanto, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que o cessar-fogo "não inclui o Líbano" após uma série de ataques causarem explosões no sul do Líbano nesta quarta.
A Casa Branca também reiterou que o Líbano não faz parte do cessar-fogo entre os EUA e o Irã.
Questionada se o Líbano poderia eventualmente aderir a um acordo de cessar-fogo, Karoline Leavitt disse que isso continuará a ser discutido.
Líbano sob ataque no 1º dia de cessar-fogo

Crédito,Getty Images
As Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmam ter realizado hoje os "maiores ataques" em todo o Líbano desde o início de sua operação contra o Hezbollah.
O porta-voz das IDF, Avichay Adraee, afirmou em um comunicado que "em 10 minutos e em diversas áreas simultaneamente", o Exército israelense realizou ataques contra "cerca de 100 quartéis-generais e infraestrutura militar pertencentes ao Hezbollah".
Andraee citou o chefe do Estado-Maior de Israel, o general Eyal Zamir, ao dizer que as IDF "aproveitarão todas as oportunidades" de atacar o Hezbollah: "Continuaremos sem parar".
O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, disse que o país insiste em "separar os cenários entre o Irã e o Líbano para mudar a realidade no Líbano e remover ameaças aos moradores do norte de Israel [fronteira com o Líbano]".
A liderança de Israel tem afirmado que não deixará o país vizinho até que a ameaça representada pelo Hezbollah seja eliminada.
A agência de notícias árabe Lebanon 24 informou que os hospitais no Líbano estão superlotados de vítimas e que o Ministério da Saúde está pedindo aos cidadãos que evitem sair às ruas para liberar espaço para as ambulâncias.
O canal de TV pró-Hezbollah Al Manar relatou múltiplas mortes e feridos em decorrência dos ataques aéreos nos subúrbios do sul de Beirute, no Vale do Bekaa e nas montanhas.
O primeiro-ministro libanês pediu a "todos os amigos do Líbano" que impeçam a ação militar israelense no país "por todos os meios disponíveis", após a grande onda de ataques aéreos.
Em uma publicação no X, Nawaf Salam afirmou: "Israel continua a expandir suas agressões, que têm como alvo bairros residenciais densamente povoados, ceifando a vida de civis desarmados em várias partes do Líbano, particularmente na capital, Beirute".
Salam disse que as ações da IDF demonstraram um "total desrespeito" pelo direito internacional, acrescentando: "Todos os amigos do Líbano são convocados a nos ajudar a impedir essas agressões por todos os meios disponíveis".
Após os novos ataques de Israel, um grupo de países ocidentais pediu uma "paz rápida e duradoura" no Irã e que "todas as partes" cumpram o cessar-fogo de duas semanas — inclusive no Líbano.
A declaração é assinada por líderes do Reino Unido, França, Itália, Alemanha, Canadá, Dinamarca, Países Baixos, Espanha, Comissão Europeia e Conselho Europeu.
O que disseram EUA e Irã?
Trump afirmou na terça que concordou em "suspender o bombardeio e os ataques contra o Irã por um período de duas semanas" caso o Irã aceite reabrir o estreito de Ormuz, uma rota essencial para o transporte de petróleo e outras exportações do Golfo.
Em uma publicação em sua rede social, Truth Social, Trump disse que aceitou o cessar-fogo provisório porque "já atingimos e superamos todos os objetivos militares".
Isso ocorre depois de ele ter alertado anteriormente que os EUA poderiam destruir o Irã "em uma noite" e que "toda civilização morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada", ameaças que foram condenadas pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e pelo papa.
Nesta quarta-feira, Trump disse que os EUA estariam trabalhando em estreita colaboração com o Irã e "falando sobre alívio de tarifas e sanções".
Em uma publicação, ele acrescentou que "um país que forneça armas militares ao Irã será imediatamente tarifado em 50% sobre quaisquer e todos os bens vendidos aos Estados Unidos da América, com efeito imediato. Não haverá exclusões ou isenções"
Já o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, disse que as Forças Armadas dos EUA garantiriam que o Irã cumpra o cessar-fogo e volte à mesa para um acordo.
As tropas vão "permanecer onde estão, permanecer prontas, permanecer vigilantes" e estar "prontas para retomar a qualquer momento", acrescentou.
O Irã concordou em permitir a passagem de embarcações pelo Estreito de Ormuz por duas semanas, com o trânsito coordenado pelas forças militares iranianas.
O país também apresentou um plano de 10 pontos, que inclui, entre outras medidas, a cessação completa da guerra no Irã, Iraque, Líbano e Iêmen; o "compromisso total" com a retirada das sanções contra o Irã; a liberação de fundos e ativos iranianos congelados pelos EUA; e o "pagamento integral de compensação pelos custos de reconstrução" ao Irã.
Também afirma que o Irã "se compromete plenamente a não buscar a posse de armas nucleares".
"A vitória do Irã no campo de batalha também será consolidada nas negociações políticas", afirmou o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã no comunicado.

Crédito,Reuters
O que disse Israel?
Sirenes soaram em Israel logo após o anúncio de Trump, com as forças de segurança israelenses afirmando que estavam interceptando mísseis lançados pelo Irã.
Diversas explosões foram ouvidas em Jerusalém na noite de terça-feira (7/4).
Poucas horas após o anúncio do cessar-fogo por Trump, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou: "Israel apoia a decisão do presidente Trump de suspender os bombardeios contra o Irã por duas semanas, sujeita à abertura imediata do estreito e a paralisação de todos os ataques contra os EUA, Israel e países da região".
A declaração israelense acrescentou que o "cessar-fogo não inclui o Líbano", onde Israel tem tropas em solo.
A liderança israelense tem reiterado que não deixará o Líbano até que a ameaça do Hezbollah (aliado do Irã) seja eliminada. Até o momento, não há indicação de que Israel tenha concordado em interromper suas operações no país ou em outras frentes.
Não está claro quão envolvido Netanyahu esteve na decisão de Trump de firmar o cessar-fogo.
O que vem a seguir?
O Paquistão, que tem intermediado as negociações, convidou as delegações dos países envolvidos no conflito para se encontrarem em Islamabad, capital do Paquistão, na sexta-feira (10/4) "para novas negociações em direção a um acordo conclusivo que resolva todas as disputas".
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, reconheceu que existem discussões sobre conversas em encontros presenciais, mas disse que "nada é definitivo até ser anunciado pelo presidente ou pela Casa Branca".
Qualquer que seja o formato, as negociações devem ser bastante difíceis.
Os dois países já aparentam mostrar contradições sobre o que de fato o cessar-fogo engloba. Além disso, o Irã e os EUA já tiveram duas rodadas de negociações no ano passado e, nas duas ocasiõesm houve uma escalada de tensões militares durante as negociações.
Segundo Khashayar Joneidi, correspondente da BBC News Persa em Washington, há um déficit de confiança entre os países às vésperas de uma nova rodada de negociações.
Joneidi lista entre os impasses o tráfego no Estreito de Ormuz e o programa nuclear iraniano.
"Os EUA condicionaram o cessar-fogo à livre circulação de navios no Estreito de Ormuz, enquanto o Irã insiste em manter controle sobre o tráfego marítimo na região, citando sua posição geográfica como prioridade estratégica", afirma Joneidi.
Além disso, segundo Joneidi, "a mídia estatal do país afirma que os EUA teriam aceitado o enriquecimento de urânio no Irã, mas Washington sustenta a posição oposta: não quer que nenhum enriquecimento seja realizado no território iraniano".
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Segundo uma emissora estatal iraniana, o plano de dez pontos enviado aos EUA e que deve ser discutido nos próximos dias prevê:
- Cessar completamente a guerra no Iraque, Líbano e Iêmen;
- Cessar completa e permanentemente a guerra contra o Irã, sem limite de tempo;
- Encerrar todos os conflitos na região em sua totalidade;
- Reabrir o Estreito de Ormuz;
- Estabelecer um protocolo e condições para garantir a liberdade e segurança da navegação no Estreito de Ormuz;
- Pagamento integral de indenizações pelos custos de reconstrução ao Irã;
- Compromisso total com a suspensão das sanções ao Irã;
- Liberação de fundos e ativos congelados do Irã mantidos pelos Estados Unidos;
- O Irã se compromete integralmente a não tentar possuir armas nucleares;
- O cessar-fogo imediato entra em vigor em todas as frentes assim que as condições acima forem aprovadas.
A Casa Branca contestou, no entanto, a proposta de dez pontos divulgada pela mídia estatal iraniana e afirmou que ela difere do que foi efetivamente recebido por autoridades americanas.
Trump afirmou na rede Truth Social que o que foi divulgado está sendo compartilhado por "pessoas que não têm nada a ver" com as negociações.
"Em muitos casos, são verdadeiros falsários, charlatães ou algo pior do que isso. Eles serão rapidamente desmascarados após a conclusão de nossa investigação federal."
Trump acrescentou que apenas uma proposta é aceitável para os EUA e que ela está sendo discutida a portas fechadas.