Política
Caso Moraes-Vorcaro: o que está em jogo no STF e quem fala primeiro na sessão
A BBC News Brasil transmitirá a sessão em seu canal no YouTube. Você também pode acompanhar a movimentação no plenário na live page em nosso site
Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) vão começar a discutir em plenário a grave crise que a Corte atravessa nesta terça-feira (15/9), às 10h.
A sessão será transmitida ao vivo, mas sem acesso de jornalistas ao plenário do STF, como é a praxe da cobertura.
A Corte informou que outras pessoas credenciadas terão acesso ao local, mas não poderão usar o celular, que será desligado e lacrado na entrada. Ainda não foi divulgada uma lista de quem foi autorizado a acompanhar no plenário.
A BBC News Brasil transmitirá a sessão em seu canal no YouTube. Você também pode acompanhar a movimentação no plenário na live page em nosso site.
Esse julgamento tratará apenas da petição 16.662, procedimento no qual o ministro André Mendonça tornou públicas, em 1º de setembro, conversas suspeitas atribuídas ao ministro Alexandre de Moraes e ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso acusado de fraudes bilionárias no Banco Master.
A expectativa é que os ministros decidam sobre uma possível abertura de investigação contra Moraes. Essa análise, porém, pode não ocorrer se o plenário primeiro considerar que Mendonça atuou ilegalmente ao solicitar à Polícia Federal (PF) um relatório sobre a relação do ministro com Vorcaro.
A possível nulidade desse procedimento deve ser analisada antes pela Corte, após pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), que avalia que o plenário do Supremo deveria ter sido consultado por Mendonça antes do pedido à PF.
Moraes e o ministro Gilmar Mendes chegaram a solicitar ao presidente do STF, Edson Fachin, que a análise desse caso fosse realizada junto com o julgamento das acusações de parcialidade levantadas por Moraes contra Mendonça, por sua atuação à frente das investigações das fraudes no Master e no INSS.
Fachin, no entanto, não aceitou o pedido e determinou que essa questão será julgada na semana que vem, dia 23, já que o prazo para Mendonça se manifestar sobre essas acusações acaba dia 21. Ele não quis adiar o julgamento sobre Moraes para unificar a análise dos dois casos.
Diante disso, é possível que Gilmar Mendes peça vista (mais tempo para analisar o caso) no julgamento sobre Moraes, adiando seu desfecho. Ainda que isso ocorra, porém, parte dos ministros pode optar por adiantar seus votos, ou seja, podem já se posicionar sobre o caso.

Quem votará no julgamento?
Após intensa guerra de decisões entre os ministros, Fachin puxou para si a relatoria do caso no sábado (12/9). Por isso, será o primeiro a votar, seja na discussão sobre a nulidade dos atos de Mendonça, seja sobre a abertura de uma investigação contra Moraes.
Há grande expectativa sobre sua manifestação, já que o presidente é visto como um ministro independente em relação às alas que se formaram em torno dos dois protagonistas da crise. Outro voto considerado crucial é o de Cármen Lúcia, também vista como uma ministra independente.
Constitucionalistas ouvidas pela BBC News Brasil veem a maioria dos ministros divididos em duas alas. De um lado, Moraes teria o apoio de Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin — são ministros que estiveram firmemente ao seu lado, por exemplo, nos emblemáticos julgamentos que culminaram na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.
E, de outro lado, Mendonça contaria com os votos de Nunes Marques e Luiz Fux — ambos votaram prontamente para referendar a polêmica decisão do ministro que afastou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, na terça-feira (8/9). Depois, Fachin derrubou a decisão e reintegrou Rodrigues ao cargo.
Não está claro, porém, quantos ministros participarão do julgamento desta terça-feira. Há expectativa de que, no início da sessão, sejam levantadas questões de ordem para que Moraes e Mendonça sejam declarados suspeitos e não possam votar.

Crédito,Evaristo Sa / AFP via Getty Images
Além disso, é provável que Dias Toffoli também não participe, pois ele já se declarou suspeito em todo o caso Master. Isso ocorreu em fevereiro, devido à revelação de que a família do ministro vendeu parte de um resort no Paraná para um fundo ligado ao banco investigado.
Antes de os ministros votarem, porém, Fachin lerá um relatório sobre o que será julgado. Na sequência, a PGR fará sua manifestação e podem haver sustentações orais das partes envolvidas.
Depois disso, os votos começarão pelo relator e depois seguirão a ordem prevista no regimento — ou seja, os ministros votarão por ordem inversa de antiguidade na Corte, iniciando por Flávio Dino.
Fachin marcou o julgamento após ser "atropelado" por sucessivas decisões individuais dos ministros André Mendonça, Alexandre de Moraes e Flávio Dino. O presidente também respondeu a pressões para tomar as rédeas da crise.
Na semana passada, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), lideranças empresariais e treze ministros aposentados do STF cobraram publicamente que Fachin convocasse o plenário com urgência para deliberar sobre a crise.
Leia também
ESCÂNDALO NO STF Fachin é pressionado a fazer sessão fechada em julgamento de Moraes CRISE NO STF STF salvou a democracia brasileira, mas agora a está sufocando, diz The Economist CRISE NO STF Fachin dá 24 horas para que Mendonça libere mais documentos do caso Master em meio a críticas sobre 'seletividade' CRISE NO STF Moraes fala em 'escolha seletiva' de Mendonça e pede a Fachin retirada de sigilo de todos os documentos do caso Master STF NO FUNDO POÇO Toffoli seria beneficiário de fundo ligado a Vorcaro, diz revista CRISE NO STF Moraes deve pedir nulidade de investigação e alegar ilações CRISE NO STF PF diz estar pronta para entregar registros do celular de Vorcaro: a disputa pelo aparelho do banqueiro no STF BANCO MASTER Mendonça diz que compartilhar conteúdo do celular de Vorcaro só serviria para 'tumultuar' e pode colocar investigações em risco ESCÂNDALO NO STF Zanin manda PF entregar dados de celular de Vorcaro em seu gabinete BANCO MASTER Fachin pede para Mendonça derrubar sigilo de pagamentos de VorcaroEntenda as suspeitas contra Moraes e Mendonça
A crise no STF exlplodiu há duas semanas, no dia 1º de setembro, quando Mendonça, relator do inquérito do Banco Master no STF, retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que reunia informações sobre as interações entre Vorcaro e Moraes.
Os diálogos mostram que o banqueiro cobrava atenção especial aos pagamentos do contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
A partir da análise dos metadados do arquivo do contrato entre o escritório Barci de Moraes e o Master, as investigações apontaram que a última versão do documento foi salva pelo ministro do STF.

Crédito,Adriano Machado/Reuters
Em nota, o escritório Barci de Moraes argumentou que, diante da abrangência do pedido de contratação de serviços advocatícios feito pelo Banco Master, seu setor de compliance consultou Alexandre de Moraes sobre a eventual existência de impedimentos legais para a celebração do contrato.
As mensagens obtidas pela investigação também indicam que Vorcaro teria pedido a Moraes que interferisse em seu favor junto ao diretor da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de sua prisão pela operação Compliance Zero, o banqueiro teria perguntado a Moraes via mensagem de celular: "Acha que segunda já tenho que estar fora?"
Com base no material, Mendonça pediu a Fachin que convocasse o plenário para deliberar o caso. Já a Procuradoria-Geral da República (PGR), instada por Mendonça a se manifestar, pediu a nulidade da investigação da PF e criticou os procedimentos adotados pelo ministro.
Dois dias depois, em 3 de setembro, Moraes reagiu enviando a Fachin um pedido de investigação contra Mendonça por supostas ilegalidades na condução das inquéritos do Master e do INSS.
O ministro baseou suas acusações em relatórios da inteligência da Polícia Federal para acusar Mendonça de, "em tese", ter cometido improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e de abuso de autoridade, com quebra da "imparcialidade judicial" e "favorecimento a determinados grupos políticos" ao atuar como relator dos casos.
No documento de 20 páginas enviado a Fachin, Moraes afirma que Mendonça teria agido contra ele e outros colegas de tribunal.
O magistrado também fala em um "avanço progressivo" de Mendonça "sobre atribuições próprias da Polícia Federal" e "assimetria de tratamento entre investigados de situação processual equivalente".