Política
DERROTA NAS URNAS, EMENDAS SOB SUSPEITA E DESGASTE POLÍTICO: VOLTA DE FÁVARO AO MINISTÉRIO DA AGRICULTURA FICA IMPROVÁVEL
Levantamento do jornal Estadão inclui senador de Mato Grosso entre parlamentares derrotados com pendências no STF; auditorias apontam irregularidades na aplicação de recursos e complicam cenário político do ex-ministro
A derrota eleitoral do senador Carlos Fávaro (PSD-MT) pode representar muito mais do que o fim de sua passagem pelo Congresso Nacional. Com emendas parlamentares submetidas a auditorias, questionamentos sobre a aplicação de recursos públicos e dificuldades na articulação política em Brasília, uma nova indicação do mato-grossense para comandar o Ministério da Agricultura e Pecuária no próximo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) torna-se politicamente improvável, embora não esteja oficialmente descartada.
O desgaste ganhou novos contornos com uma reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo (Estadão), que incluiu Fávaro entre seis senadores derrotados nas eleições de 2026 com investigações ou outros procedimentos relacionados ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo o levantamento do Estadão, emendas indicadas pelo parlamentar foram submetidas a auditorias no âmbito de uma ação relatada pelo ministro Flávio Dino. A Controladoria-Geral da União (CGU) identificou falhas de planejamento e transparência em transferências destinadas a municípios de Mato Grosso.
Paralelamente, o Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT) apura suspeitas de superfaturamento em obras financiadas com recursos provenientes de emendas destinadas pelo senador.
Um dos casos envolve o município de Jangada, que recebeu aproximadamente R$ 28,7 milhões em transferências indicadas por Fávaro. Desse montante, cerca de R$ 26,5 milhões foram concentrados em três contratos de pavimentação submetidos à fiscalização dos órgãos de controle.
As apurações ainda não representam comprovação de participação do senador em qualquer irregularidade. Fávaro nega problemas na destinação das emendas.
Derrota eleitoral agrava cenário político
O parlamentar também sofreu uma dura derrota nas eleições de outubro. Mesmo contando com o apoio do presidente Lula, terminou a disputa pelo Senado em Mato Grosso na quarta colocação, com 411.020 votos, equivalentes a 11,5% dos votos válidos.
As duas vagas ficaram com Mauro Mendes (União Brasil) e José Medeiros (PL).
Fávaro deixou o Ministério da Agricultura em março para disputar a reeleição. Desde então, a pasta é comandada por André de Paula, também do PSD.
Embora a reeleição de Lula tenha reaberto especulações sobre o aproveitamento de antigos ministros, o retorno de Fávaro enfrenta obstáculos políticos consideráveis.
Reportagem publicada pelo AgFeed aponta que interlocutores do governo avaliam negativamente seu desempenho na articulação política durante a passagem pelo ministério. Outros nomes, como Tião Medeiros e Arnaldo Jardim, também aparecem nas especulações sobre o futuro comando da Agricultura.
A necessidade de Lula ampliar sua base de sustentação no Congresso pode pesar contra a recondução de Fávaro. Nesse cenário, o Ministério da Agricultura poderá ser utilizado como peça importante nas negociações com partidos e representantes do agronegócio.
Do prestígio ministerial à incerteza política
O cenário é particularmente delicado para um político que ocupou uma das pastas mais estratégicas do governo federal e buscava consolidar sua força eleitoral em Mato Grosso.
Agora, além da derrota nas urnas, Fávaro terá de enfrentar o desgaste provocado pelas auditorias sobre recursos indicados durante seu mandato parlamentar.
A situação não significa condenação, nem impede juridicamente uma nova nomeação ministerial. Entretanto, a combinação de derrota eleitoral, questionamentos sobre emendas e dificuldades de articulação reduz, na avaliação política, as perspectivas de seu retorno à Esplanada dos Ministérios.
A decisão final caberá exclusivamente ao presidente Lula. Até o momento, não existe anúncio oficial descartando Fávaro da futura equipe. Mas o caminho de volta ao Ministério da Agricultura, que antes parecia uma alternativa natural para o senador derrotado, tornou-se muito mais difícil.