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Brasil propõe caminho para financiamento climático chegar a US$ 1,3 trilhão

Presidência brasileira da COP30 divulga seu último documento e diz que meta pode ser alcançada até 2035 com recursos públicos, privados e a criação de impostos sobre fortunas dos super-ricos, aviação, transações financeiras e combustíveis fósseis

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM CNN 08/11/2026
Brasil propõe caminho para financiamento climático chegar a US$ 1,3 trilhão
O valor de US$ 1,3 trilhão é o que se estima que os países em desenvolvimento necessitam receber, todos os anos, | FABIO RODRIGUES POZZEBOM

A Presidência brasileira da COP30 divulgou neste domingo (8) o seu último documento, apresentando uma receita para que o mundo consiga levantar pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano (equivalente a cerca de R$ 7,1 trilhões por ano) até 2035 para enfrentar as mudanças climáticas.

O texto foi apresentado pelo presidente da COP30, embaixador André Aranha Corrêa do Lago, em Antália, na Turquia, na véspera da abertura da COP31 e no último dia oficial do Brasil à frente da conferência do clima da ONU.

O valor de US$ 1,3 trilhão é o que se estima que os países em desenvolvimento necessitam receber, todos os anos, para cortar suas emissões de gases do efeito estufa, trocar combustíveis fósseis por energia limpa e se proteger dos efeitos extremos do clima.

Sem esse dinheiro, o mundo não conseguirá conter o aquecimento global e evitar seus piores impactos.

Com o título "Presidência da COP30: implementando o roteiro de Baku a Belém rumo a US$ 1,3 trilhão", o documento diz que impedir que o mundo ultrapasse o limite de 1,5 °C de aquecimento médio, previsto no Acordo de Paris, "já deixou de ser um risco e virou uma premissa de planejamento".

Chamado informalmente de "mapa do caminho do financiamento", o documento elenca várias propostas. De toda forma, elas não precisam ser seguidas pelos países que vão participar da COP em Antália.

O próprio Corrêa do Lago escreve no texto que ele é de uma contribuição "não prescritiva, feita por iniciativa da Presidência brasileira para ajudar a transformar as decisões de Belém em ações concretas".

O documento não foi negociado nem aprovado pelos países, mas o presidente da COP brasileira diz que espera que muitas nações o adotem de alguma forma.

Meta de US$ 1,3 trilhão para combater crise climática

A meta de chegar ao financiamento de US$ 1,3 trilhão já vinha sendo debatida há alguns anos e foi aprovada pelos países na COP30, em Belém, no ano passado.

O que ninguém tinha mostrado ainda era como chegar lá.

A conclusão do documento, preparado pela equipe de Corrêa do Lago com a ajuda de vários economistas mundiais, é que a meta pode ser alcançada, mas não do jeito que as coisas estão atualmente, tendo em vista, por exemplo, uma diminuição recente no financiamento público pelos países mais ricos e com investimentos privados ainda tímidos.

Mantidas as tendências atuais, afirma o documento, o dinheiro enviado aos países em desenvolvimento seria de cerca de US$ 461 bilhões por ano (equivalente a cerca de R$ 2,5 bilhões por ano) em 2035. Ficariam faltando nada menos do US$ 840 bilhões (equivalente a cerca de R$ 4,6 bilhões).

Para fechar essa conta, a Presidência brasileira da COP trabalhou ao longo de 2026 com especialistas e instituições de várias partes do mundo, entre eles um grupo independente de economistas de alto nível sobre financiamento climático.

Entre os colaboradores do documento estão o economista brasileiro José Alexandre Scheinkman, o britânico Nicholas Stern, a ganhadora do Nobel de Economia Esther Duflo e o francês Gabriel Zucman, conhecido por defender a taxação dos super-ricos.

Seis fontes de financiamento

O "mapa do caminho" explora seis fontes diferentes para levantar o dinheiro necessário para combater a emergência climática. Somadas, essas fontes poderiam gerar entre US$ 1,27 trilhão e US$ 1,41 trilhão por ano em 2035.

As fontes são as seguintes:

1 - Dinheiro público

O ponto de partida, segundo o documento, continua sendo o dinheiro público vindo dos países mais ricos, que são os maiores responsáveis históricos pelas emissões que levam ao aquecimento global.

Assim, eles têm uma responsabilidade maior para ajudar os países em desenvolvimento no combate às mudanças climáticas.

Também por isso, o documento afirma que o pilar público precisa incluir doações e empréstimos baratos de países ricos, fundos climáticos e bancos de desenvolvimento, como o Banco Mundial.

Atualmente, esse fluxo de dinheiro público é de cerca de US$ 160 bilhões por ano (equivalente a cerca de R$ 880 bilhões por ano). A proposta é mais que dobrá-lo, para até US$ 384 bilhões (equivalente a cerca de R$ 2,1 bilhões).

Porém, a ajuda oficial dos países ricos ao desenvolvimento caiu de US$ 288 bilhões (equivalente a cerca de R$ 1,5 bilhão) em 2023 para US$ 174 bilhões (equivalente a cerca de R$ 957 bilhões) em 2025.

2 - Investimento privado

Com o tempo, essa passaria a ser a maior fatia de investimentos.

O capital privado que vai para projetos climáticos em países em desenvolvimento atualmente, estimado em cerca de US$ 94 bilhões por ano (equivalente a cerca de R$ 517 bilhões), teria que chegar a US$ 882 bilhões (equivalente a cerca de R$ 4,8 bilhões), um aumento de mais de nove vezes.

Para isso, governos e bancos públicos precisariam reduzir os riscos para os investidores, com garantias, seguros e proteção contra a variação do câmbio.

3 - Cooperação entre países em desenvolvimento

A chamada cooperação Sul-Sul, com nações como a China ajudando outras do mesmo grupo, poderia passar de uma média de US$ 3 bilhões (equivalente a cerca de R$ 16 bilhões) para até US$ 39,5 bilhões por ano (equivalente a cerca de R$ 217 bilhões por ano).

O texto ressalta que essa colaboração complementa, mas não substitui, a responsabilidade dos países ricos.

4 - Reservas do FMI

Países com contas externas sólidas poderiam repassar parte dos recursos que mantêm no FMI (Fundo Monetário Internacional), os chamados Direitos Especiais de Saque, para financiar ações climáticas.

O potencial é de reunir até US$ 20 bilhões por ano (equivalente a cerca de R$ 110 bilhões por ano).

5 - Novos impostos e taxas

O documento da Presidência brasileira da COP sugere taxar super-ricos, transações financeiras, criptomoedas, passagens aéreas, transporte marítimo e combustíveis fósseis.

Uma parte do que for arrecadado iria para o clima, o que poderia somar até US$ 129 bilhões por ano (equivalente a cerca de R$ 709 bilhões). Esse dinheiro reforçaria o caixa dos fundos e bancos públicos.

6 - Mercado de carbono

Países que compram créditos de quem reduz emissões poderiam movimentar de US$ 40 bilhões a US$ 144 bilhões por ano (equivalente a cerca de R$ 220 bilhões a R$ 792 bilhões por ano), dependendo do preço do carbono e de regras que garantam que os cortes são reais.

Fiscalização sobre cumprimento do plano

Por fim, o documento propõe uma forma de fiscalizar se o plano está saindo do papel.

Uma das principais críticas às COPs é justamente o fato de que muitos compromissos assumidos durante as cúpulas climáticas acabam não sendo implementados completamente.

A principal ferramenta de fiscalização seria a criação de um painel público na internet, a "Bússola de Ação do Financiamento Climático".

Ela avaliaria o avanço das medidas pela escala, velocidade, alcance e impacto do dinheiro. A proposta é que os resultados orientem as próximas conferências do clima e o novo balanço global do Acordo de Paris, que começa justamente na COP31.

A Presidência brasileira da COP reconhece as dificuldades, como as tensões geopolíticas, as dívidas altas dos países pobres e a crise de confiança entre ricos e pobres, mas aposta que boa parte da solução está fora das negociações da ONU, nas mãos de bancos, governos e investidores.

"Ou prosperamos coletivamente, ou fracassamos e declinamos individualmente", escreve Corrêa do Lago na apresentação do documento, que agora passa às mãos das Presidências da COP31, na Turquia, e da COP32, na Etiópia.