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Díaz-Canel denuncia EUA por asfixiar Cuba e afirma que país ‘está em pé e não se rende’

Presidente de Cuba atribui apagões ao bloqueio e diz que reformas econômicas não representam abandono do socialismo

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM FOLHA DE S. PAULO 23/08/2026
Díaz-Canel denuncia EUA por asfixiar Cuba e afirma que país ‘está em pé e não se rende’
Em entrevista exclusiva, presidente cubano admite insatisfações, mas nega fim do socialismo | Folha de S. Paulo

O presidente Miguel Díaz-Canel afirmou que os Estados Unidos asfixiam Cuba por meio de sanções econômicas e energéticas, atribuiu ao bloqueio a escassez de combustível e os apagões prolongados e negou que as novas reformas econômicas representem uma guinada capitalista. Em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, ele afirmou que o país continuará resistindo às pressões de Washington.

Na conversa concedida em Havana e publicada pela coluna de Mônica Bergamo, Díaz-Canel responsabilizou o governo do presidente estadunidense Donald Trump pelo agravamento das dificuldades em Cuba. Segundo o dirigente, as sanções procuram ampliar as privações da população até provocar uma ruptura política e a derrubada do gobverno revolucionário instalado após a Revolução de 1959.

“Estão impondo a Cuba uma guerra multidimensional: ideológica, cultural, econômica e midiática. O imperialismo está tentando, por todos os meios, nos asfixiar economicamente para provocar uma explosão social”, declarou.

Aos 66 anos, Díaz-Canel governa uma ilha atingida pela falta de eletricidade, água, transporte, alimentos e medicamentos. O presidente reconheceu a gravidade do cenário, mas rejeitou a avaliação de que Cuba esteja prestes a entrar em colapso.

“Estamos em uma situação complexa, mas com uma enorme criatividade, que se soma à heroica capacidade de resistência do povo cubano”, disse. “O que não posso negar é que se trata de uma situação extremamente complexa, de sofrimento, na qual se vê a perversidade de um governo tão poderoso quanto o dos EUA, que sacrifica o povo cubano na tentativa de submeter uma nação. E essa nação não se rende, esse povo não se rende.”

Cuba enfrenta apagões de até 40 horas

De acordo com Díaz-Canel, apenas um navio petroleiro chegou ao país nos últimos sete meses. A embarcação, procedente da Rússia, transportou 100 mil toneladas de petróleo bruto como ajuda humanitária. O presidente afirmou que Cuba necessita de sete navios de combustível por mês para atender à demanda nacional.

Importações privadas de gasolina continuaram ocorrendo, mas o volume acumulado durante o período equivaleria à carga de somente uma embarcação. Para Díaz-Canel, a diferença entre a necessidade do país e o combustível disponível explica parte da deterioração dos serviços públicos.

O dirigente afirmou que 1.400 megawatts de capacidade de geração deixaram de ser utilizados por falta de combustível. Caso esse potencial estivesse disponível, acrescentou, os cortes de energia poderiam ser limitados a aproximadamente três horas diárias.

“No entanto, hoje temos apagões de mais de 20, 30, às vezes até de mais de 40 horas. Além disso, sofremos blecautes, quando o sistema desliga-se por completo, e sua recuperação leva dias”, afirmou.

Segundo Díaz-Canel, a ausência de energia afeta o abastecimento de água, o transporte, a produção industrial e o funcionamento de escolas e hospitais. Ele definiu o conjunto de sanções e restrições como um “genocídio silencioso” contra a população cubana.

“Não acredito que serão cúmplices desse genocídio silencioso. Se ele avançar, é porque o mundo está permitindo. Aquilo que pode acontecer hoje com Cuba, e que já aconteceu na Venezuela e em Gaza, poderá acontecer com qualquer nação”, declarou.

Presidente aponta impacto da crise na saúde

Díaz-Canel apresentou números sobre as consequências da escassez para o sistema de saúde. Segundo ele, mais de 98 mil pacientes aguardam cirurgias, entre os quais 12 mil crianças. O presidente também disse que mais de 117 mil pessoas com câncer, incluindo aproximadamente 1.200 crianças, não estariam recebendo tratamento oncológico.

Outros 3 mil pacientes enfrentariam dificuldades para realizar hemodiálise, enquanto 64 mil crianças estariam com a vacinação atrasada. O presidente afirmou ainda que Cuba consegue oferecer apenas 30% dos medicamentos previstos em sua lista básica.

“A mortalidade infantil, que era de quatro a cinco mortes a cada mil nascidos vivos — uma taxa de países desenvolvidos — mais que dobrou. São mortes de crianças. Que poderiam ter sido evitadas porque nós sabemos como evitar”, disse.

Díaz-Canel atribuiu a falta de remédios e equipamentos à pressão exercida por Washington sobre companhias de transporte marítimo. De acordo com ele, milhares de contêineres com alimentos, componentes para o sistema elétrico, painéis fotovoltaicos e matérias-primas farmacêuticas permanecem retidos em portos estrangeiros.

O turismo, uma das principais fontes de divisas de Cuba, também foi atingido. Segundo o presidente, metade dos hotéis do país está fechada e cerca de 27 mil trabalhadores do setor foram afastados de suas funções.

Díaz-Canel culpa bloqueio pela crise

Questionado sobre reclamações de cubanos contra a burocracia estatal e a demora na adoção de medidas econômicas, Díaz-Canel admitiu falhas administrativas. Ele sustentou, porém, que os problemas internos não são a principal causa da crise.

“Quando as pessoas se referem ao bloqueio interno, estão falando das insatisfações com determinados aspectos da burocracia, com a lentidão de certas ações do governo. E nós temos sido os principais críticos e autocríticos disso”, afirmou.

Na avaliação do presidente, mesmo uma gestão sem erros não teria conseguido neutralizar os efeitos de mais de seis décadas de sanções.

“Ainda que tivéssemos feito tudo certo, sem falhas — algo muito difícil em um país que vive há mais de 60 anos em uma situação de praça sitiada —, a principal causa do que vive Cuba hoje é o bloqueio dos EUA. Ele é determinante”, declarou.

Cuba atravessa sucessivas crises econômicas que provocaram uma contração acumulada de 15% do Produto Interno Bruto desde a chegada de Díaz-Canel ao poder. Entre os fatores citados estão a pandemia de Covid-19 e o enfraquecimento da parceria energética com a Venezuela.

Governo abre mais espaço para empresas privadas

Diante da crise, o Parlamento cubano aprovou um pacote de 176 medidas econômicas que amplia de maneira inédita a atuação do setor privado. Empresários poderão controlar mais de dois negócios e contratar mais de cem funcionários, abrindo caminho para a formação de conglomerados.

As mudanças também permitem a negociação de ações e autorizam empresas estrangeiras a explorar terras por até 99 anos, mediante regime de usufruto. Cubanos residentes no exterior poderão investir no país.

Díaz-Canel rejeitou a interpretação de que essas medidas representem a adoção do capitalismo. Segundo ele, as mudanças buscam aumentar a produção, ampliar a autonomia das empresas estatais e contornar parte das restrições internacionais.

“Não há reformas capitalistas”, afirmou. “Essas transformações buscam também dar maior autonomia à empresa estatal socialista. Quem fortalece a empresa estatal não está renunciando ao socialismo.”

O presidente argumentou que os principais meios de produção continuarão sob controle estatal. Para ele, a presença do Partido Comunista, a participação popular e o apoio da maioria da população impediriam uma restauração capitalista.

“O povo não permitiria porque sabe o que a revolução significou em matéria de benefícios”, declarou.

Díaz-Canel reconheceu que a abertura econômica iniciada após o colapso da União Soviética ampliou a desigualdade social. Ele citou a criação de lojas que operavam com moedas estrangeiras, a entrada de investimentos externos e as remessas enviadas por parentes residentes nos Estados Unidos como fatores de diferenciação de renda.

Apesar disso, sustentou que a rede de proteção social cubana permanece mais abrangente que a existente em economias capitalistas. Segundo ele, os grupos de menor renda são atendidos por mais de 32 programas financiados pelo orçamento público.

Cuba rejeita concessões aos Estados Unidos

O presidente afirmou que o governo cubano mantém interesse em dialogar com Washington, mas rejeita negociações sob pressão. Díaz-Canel lembrou a aproximação ocorrida durante o governo de Barack Obama e disse que funcionários dos dois países voltaram a conversar, embora ainda não exista uma agenda formal.

“Não pode haver diálogo sob opressão. É preciso buscar um canal de diálogo sem condições prévias”, declarou.

Ele também negou que o pacote econômico seja uma resposta direta às exigências do governo Trump. Segundo Díaz-Canel, as 176 medidas resultam de discussões conduzidas há mais de uma década e passaram a ser implantadas com maior urgência por causa da crise.

“Os EUA não têm moral para nos pedir nenhuma concessão, nem nós estamos dispostos a fazê-las”, afirmou.

Para o dirigente, Cuba não tem outra opção além de suportar as restrições e buscar soluções internas. “Não temos alternativa senão resistir. Temos que resistir”, disse.

Líder cubano admite risco de ação militar

Ao comentar a possibilidade de uma intervenção estadunidense, Díaz-Canel afirmou que Cuba se prepara para uma eventual agressão. Ele citou a realização semanal de um Dia Nacional da Defesa e a estratégia denominada “Guerra de Todo o Povo”, baseada em táticas de guerrilha.

“Dessa administração dos EUA podemos esperar qualquer coisa. Somos um país de paz. Mas há uma retórica constante de ameaças por parte dos EUA. O povo está se preparando para a defesa”, declarou.

Questionado sobre seu destino pessoal em caso de uma operação militar, o presidente adotou um tom de combate e afirmou estar disposto a morrer na defesa do regime cubano.

“Se chegar a minha hora, chegou. Mas não vai ser com fraqueza e covardia. Vai ser lutando”, disse.

Díaz-Canel encerrou a entrevista reafirmando que o governo não pretende capitular, apesar do aprofundamento da crise econômica, energética e humanitária.

“Sabemos que vai ser duro. Sim, está sendo duro. Mas, veja: aqui estamos, em pé, lutando, sem nos render.”