Política
DE ALIADO A OPOSITOR: GAECO REVELA QUE CAIO CORDEIRO ARTICULOU CONTRATO COM TV CIDADE VERDE ANTES DE ROMPER COM WANDERLEY EM VG
Relatório de inteligência aponta que vereador buscou aproximar emissora da Câmara e da Prefeitura; após o fracasso das articulações comerciais, parlamentar se afastou de antigos aliados e intensificou defesa de CPI contra transporte coletivo
Uma revelação extraída dos relatórios de inteligência do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) coloca sob os holofotes os bastidores da mudança de posicionamento político do vereador Caio Cordeiro (Novo), de Várzea Grande. O parlamentar, que prestou depoimento aos investigadores sobre supostas irregularidades na Câmara Municipal, aparece em registros de áudio analisados pelo Ministério Público articulando a possível celebração de um contrato entre a TV Cidade Verde e órgãos públicos municipais, antes de romper politicamente com o então presidente do Legislativo, Wanderley Cerqueira (MDB), e passar a se opor à administração da prefeita Flávia Moretti (PL).
As informações constam do Relatório Técnico nº 174/2026, produzido pela Coordenadoria de Análise do Gaeco, que integra a investigação relacionada à Operação Cathedra Venalis, deflagrada na terça-feira (20) para apurar suspeitas de corrupção, extorsão, compra de apoio político e outras possíveis irregularidades na Câmara Municipal de Várzea Grande.
Na página 23 do relatório técnico, os investigadores registram indícios de que Caio teria atuado reiteradamente como intermediário entre representantes da TV Cidade Verde, o presidente da Câmara e a administração municipal para viabilizar uma parceria institucional e comercial com a emissora.
A análise foi realizada a partir de arquivos digitais e gravações vinculados ao próprio parlamentar, permitindo aos investigadores reconstruir parte das articulações políticas e comerciais realizadas entre 2025 e 2026.
Em um áudio de 22 de outubro de 2025, Caio procura Wanderley Cerqueira e tenta agendar uma conversa entre o então presidente da Câmara e representantes da emissora, entre eles um diretor identificado como Denis. Na mensagem, o vereador menciona a intenção de construir uma parceria com o veículo de comunicação.
Os investigadores identificaram novos contatos em dezembro de 2025 e janeiro de 2026, nos quais aparecem tentativas de aproximação, agendamento de reuniões e discussões relacionadas às condições de uma possível negociação comercial.
Em uma das gravações de 21 de janeiro de 2026, Caio afirma: "Pois é, mas quem vendeu, fui eu", enquanto discute uma negociação e menciona valores numéricos sem que a transcrição esclareça suficientemente sua unidade ou natureza. O conteúdo é relevante para compreender a atuação do parlamentar nas tratativas, mas não comprova a celebração de contrato ou o recebimento de recursos.
As conversas também mencionam a participação de uma advogada identificada como Michele, que teria atuado nas negociações envolvendo a emissora.
O aspecto que chama atenção no relatório é a sequência temporal identificada pelos próprios investigadores.
Nas considerações finais, na página 34 do Relatório Técnico nº 174/2026, o Gaeco registra que Caio Cordeiro mantinha proximidade e apoio político a Wanderley Cerqueira, circunstância evidenciada por manifestações registradas em áudios e participação em articulações do então presidente da Câmara.
Segundo a análise técnica, essa relação perdurou aproximadamente até a metade de 2026. O relatório acrescenta que, após o insucesso das negociações envolvendo a TV Cidade Verde, houve afastamento político entre os envolvidos.
A partir desse período, Caio passou a adotar posição contrária a Wanderley e à prefeita Flávia Moretti, além de intensificar a defesa da instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar os serviços de transporte coletivo prestados pela União Transportes e Turismo Ltda.
A cronologia identificada pelo Gaeco levanta uma questão de interesse público: qual foi a efetiva relação entre as negociações comerciais frustradas, o afastamento político e a intensificação das denúncias apresentadas pelo vereador?
Embora o documento registre essa sucessão de acontecimentos, não demonstra que a falta de um acordo comercial tenha sido o motivo determinante do rompimento ou que as denúncias posteriores sejam infundadas.
A mudança de posicionamento ganha relevância porque Caio Cordeiro foi um dos parlamentares ouvidos pelo Gaeco na investigação sobre a suposta negociação de apoio político na Câmara de Várzea Grande.
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Caio declarou ter recusado as ofertas e relatou ameaças, pressões políticas e retaliações após se distanciar do grupo.
A investigação também examina suspeitas de utilização de cargos, vantagens financeiras e possíveis mecanismos de constrangimento para assegurar apoio parlamentar. As alegações ainda dependem de comprovação e não representam condenação dos citados.
A possível intermediação de contratos de publicidade por um vereador também suscita questionamentos sobre os limites entre sua atuação parlamentar, suas relações profissionais e os interesses comerciais de empresas de comunicação.
A contratação de publicidade institucional pelo poder público é legal quando observadas as normas aplicáveis, a impessoalidade, a transparência e os procedimentos administrativos exigidos.
No entanto, os registros analisados levantam questões que merecem esclarecimentos: existiu uma proposta formal da TV Cidade Verde à Câmara ou à Prefeitura? Quais serviços seriam oferecidos? Havia previsão de recursos públicos? Qual foi o papel exercido pelo parlamentar durante as negociações?
O relatório não demonstra que Caio tenha recebido vantagem pessoal, que tenha sido celebrado contrato decorrente dessas tratativas ou que a intermediação, por si só, configure infração penal.
O que os documentos efetivamente revelam é a existência de uma articulação comercial e política examinada pelo Gaeco, seguida de uma ruptura entre antigos aliados.
A Operação Cathedra Venalis continua cercada de questionamentos sobre as relações entre agentes públicos, interesses econômicos e o comando político da Câmara de Várzea Grande. A análise das gravações acrescenta novos elementos para compreender os bastidores desse conflito.
O esclarecimento das negociações envolvendo a TV Cidade Verde, das circunstâncias do rompimento e dos motivos das denúncias é fundamental para que a população conheça integralmente os acontecimentos que marcaram a crise política no Legislativo municipal.
