Polícia

DOS 27 VOTOS À MIRA DO GAECO: A ASCENSÃO DE ILDE TAQUES, OS R$ 40 MIL E OS BASTIDORES QUE LIGAM DOIS VEREADORES DE CUIABÁ À INVESTIGAÇÃO

Eleito por unanimidade para comandar a Câmara de Cuiabá em 2027, Ilde Taques vê sua trajetória política cruzar uma investigação sobre suspeitas de corrupção em Várzea Grande. Ao lado de Alex Rodrigues, o presidente eleito precisa esclarecer circunstâncias

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM GAECO-MT 20/10/2026
DOS 27 VOTOS À MIRA DO GAECO: A ASCENSÃO DE ILDE TAQUES, OS R$ 40 MIL E OS BASTIDORES QUE LIGAM DOIS VEREADORES DE CUIABÁ À INVESTIGAÇÃO
Segundo o Gaeco, as investigações procuram esclarecer a suposta atuação estruturada de um grupo que teria se dedicado à obtenção de vantagens indevidas, cooptação de agentes públicos | Divulgação

A política costuma produzir reviravoltas, mas poucas são tão expressivas quanto a sequência de acontecimentos envolvendo o vereador Ilde Taques (Podemos). Em 6 de outubro de 2026, ele alcançou o ponto mais importante de sua trajetória no Legislativo cuiabano: foi eleito presidente da Câmara Municipal para o biênio 2027/2028, conquistando os votos dos 27 vereadores. Exatamente duas semanas depois, seu nome apareceu entre os investigados pela Operação Cathedra Venalis, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de Mato Grosso, para investigar suspeitas de corrupção, obtenção de vantagens indevidas e possível atuação de organização criminosa envolvendo a eleição da Mesa Diretora da Câmara de Várzea Grande.

A coincidência temporal entre a conquista política e a operação policial não comprova qualquer irregularidade na eleição cuiabana. Entretanto, coloca o presidente eleito diante de um desafio que ultrapassa a discussão criminal: preservar a confiança institucional construída durante sua campanha para comandar o Legislativo e esclarecer sua participação em acontecimentos que passaram a integrar uma investigação de grande repercussão.

Ao lado de Ilde, outro vereador de Cuiabá também passou a integrar as investigações: Alex Rodrigues (Podemos), que participou com ele de um almoço político realizado em maio, em uma chácara na região da Guia, pouco antes da eleição da Mesa Diretora de Várzea Grande. O encontro, inicialmente apresentado pelos dois parlamentares como uma confraternização, passou a despertar interesse dos investigadores depois que ambos foram abordados por policiais da Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas (Rotam) ao deixarem o local.

Segundo informações, aproximadamente R$ 40 mil em dinheiro vivo teriam sido encontrados durante a abordagem, em um veículo ocupado pelos parlamentares. A quantia não chegou a ser apreendida naquela ocasião, mas o episódio teria produzido informações que posteriormente contribuíram para o avanço das investigações. Até agora, não há esclarecimento público conclusivo sobre a propriedade e a origem do dinheiro, tampouco comprovação de que a quantia estivesse relacionada à negociação de votos. A existência de dinheiro em espécie não configura, isoladamente, qualquer crime.

É justamente nesse ponto que a história ganha uma dimensão política particular. A presença de Ilde Taques entre os investigados não envolve apenas mais um integrante do Legislativo municipal. Trata-se do parlamentar escolhido para presidir, a partir de janeiro, uma das mais importantes Câmaras municipais de Mato Grosso, instituição responsável pela fiscalização do Executivo, pela aprovação de leis e pela administração de recursos públicos.

A eleição de Ilde não foi resultado de uma candidatura que nasceu consensual. Durante semanas, a disputa pelo comando da Câmara de Cuiabá movimentou diferentes grupos políticos, especialmente parlamentares ligados ao prefeito Abilio Brunini (PL) e setores próximos ao presidente da Assembleia Legislativa, Max Russi (Podemos). Ilde construiu inicialmente um bloco de aproximadamente 15 vereadores, número suficiente para assegurar maioria na eleição interna. Sua candidatura ganhou força enquanto outros grupos tentavam construir uma alternativa para a presidência do Legislativo.

O cenário mudou quando os adversários desistiram de apresentar uma chapa concorrente. O que parecia encaminhado para uma eleição disputada terminou com uma composição ampla e os votos favoráveis dos 27 integrantes da Câmara. A chapa escolhida, denominada "Lealdade e Compromisso", reuniu vereadores de diferentes partidos e grupos políticos, consolidando uma articulação que permitirá a Ilde assumir a presidência em 1º de janeiro de 2027, substituindo a gestão atualmente comandada pela vereadora Paula Calil (PL).

O resultado demonstrou a capacidade de articulação parlamentar de Ilde, mas também revelou a complexidade das negociações que antecederam a votação. A unanimidade formal obtida no plenário não significa necessariamente que todos os vereadores tenham apoiado sua candidatura desde o início. Representa, sobretudo, o consenso alcançado depois de intensas conversas, rearranjos políticos e retirada de candidaturas concorrentes.

Comandar a Câmara significa ocupar uma posição estratégica na organização da pauta legislativa, na condução dos trabalhos parlamentares e na interlocução institucional com a Prefeitura. Embora o presidente não tenha poderes ilimitados sobre as decisões dos vereadores, exerce atribuições que podem influenciar a dinâmica política e administrativa do Legislativo.

Será justamente nesse ambiente que Ilde deverá assumir o cargo enquanto uma investigação envolvendo seu nome permanece sem conclusão.

A ligação entre Ilde Taques, Alex Rodrigues e a Operação Cathedra Venalis remonta a maio, quando os dois vereadores cuiabanos participaram de um almoço com integrantes de um grupo político envolvido na disputa pela presidência da Câmara de Várzea Grande. O encontro ocorreu em uma chácara na região do Distrito de Nossa Senhora da Guia, na véspera da votação que reconduziu Wanderley Cerqueira (MDB) ao comando do Legislativo várzea-grandense, por uma diferença de apenas um voto: 12 a 11.

Aquela eleição acabou posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal, em razão de sua antecipação irregular para o biênio 2027/2028. A decisão, porém, tratou da legalidade do calendário eleitoral da Mesa Diretora e não representou reconhecimento judicial de compra de votos.

Alex Rodrigues afirmou que compareceu à chácara a convite do vereador Miguel Júnior, de quem é amigo pessoal. Reconheceu que havia discussões sobre a disputa política em Várzea Grande, mas negou ter participado de qualquer negociação relacionada à eleição. Sua explicação foi resumida em uma frase que ganhou repercussão na imprensa: "Lugar errado, na hora errada".

Ilde Taques apresentou versão semelhante. Confirmou sua presença no almoço, reconheceu ter sido abordado pela Rotam ao deixar o encontro e afirmou não ter participado de negociações ilegais. Questionado sobre a abordagem e as informações referentes ao dinheiro, declarou que nada de ilegal havia sido apreendido em sua posse, nem durante a abordagem, nem nas buscas posteriores realizadas em sua residência.

As declarações dos parlamentares constituem versões defensivas e precisam ser consideradas juntamente com os elementos reunidos pelas autoridades. A investigação deverá esclarecer a quem pertencia o veículo abordado, quem era responsável pela quantia mencionada nas reportagens, qual a origem do dinheiro e se existia alguma relação entre o episódio e as articulações eleitorais de Várzea Grande.

A situação dos dois vereadores cuiabanos apresenta circunstâncias comuns, mas a responsabilidade de cada um deverá ser examinada individualmente. Ambos participaram do almoço, estiveram envolvidos na abordagem da Rotam e foram alcançados pelas diligências do Gaeco. Os dois também negam participação em qualquer esquema de corrupção.

Alex Rodrigues afirmou que não havia dinheiro entre seus pertences e declarou que o automóvel não era de sua propriedade. Ilde, por sua vez, sustentou que sua participação no encontro teve caráter social e que não tomou parte em negociações ilícitas envolvendo a eleição da Mesa Diretora várzea-grandense.

Ilde informou ainda que colaborou com os agentes durante o cumprimento do mandado judicial em sua residência. A defesa também declarou que aguardava acesso integral aos autos da investigação, que tramita sob sigilo, para conhecer detalhadamente os fatos atribuídos ao parlamentar.

Os aparelhos celulares dos dois vereadores também foram alcançados pelas diligências policiais. O material eventualmente extraído e analisado poderá contribuir para esclarecer contatos, mensagens e circunstâncias das reuniões políticas realizadas antes da eleição de maio.

A análise desses elementos é fundamental porque a simples presença em encontros políticos não constitui prova de corrupção. Vereadores podem participar de reuniões, construir alianças e discutir eleições internas de outros Legislativos. O que a legislação proíbe é a utilização de vantagens indevidas para influenciar decisões de agentes públicos, caso estejam presentes os demais requisitos dos crimes investigados.

Nesse contexto, a principal consequência imediata da operação para Ilde Taques está no campo da exposição pública e da necessidade de esclarecimento. Sob o aspecto jurídico e institucional, a situação é diferente.

O procurador-geral da Câmara de Cuiabá, Eustáquio Neto, afirmou que a investigação não interfere, até o momento, na eleição que escolheu Ilde para presidir o Legislativo no próximo biênio. Segundo ele, os fatos investigados estão relacionados à disputa pela Mesa Diretora de Várzea Grande, sem vinculação oficialmente demonstrada ao processo eleitoral realizado na Capital em 6 de outubro.

A Procuradoria também informou que não havia elementos concretos que justificassem a adoção imediata de procedimentos disciplinares contra os vereadores cuiabanos. O entendimento é relevante porque impede confundir a condição de investigado com eventual impedimento automático ao exercício de mandato ou à posse em cargo de direção parlamentar.

Com as informações disponíveis, Ilde continua eleito para assumir a presidência da Câmara Municipal de Cuiabá em 1º de janeiro de 2027. Não há demonstração pública de que os 27 votos recebidos por ele tenham sido obtidos mediante práticas ilegais.

Politicamente, entretanto, os acontecimentos acrescentam uma circunstância à preparação de sua futura gestão. O vereador que conseguiu reunir o apoio de todos os colegas passa a enfrentar questionamentos sobre sua presença em uma reunião ligada a uma disputa pelo comando do Legislativo de um município vizinho.

Isso não demonstra culpa nem autoriza presumir envolvimento em corrupção. Significa que as circunstâncias reveladas passaram a integrar um debate público que exige respostas fundamentadas em informações verificáveis.

A Operação Cathedra Venalis, cujo nome pode ser traduzido do latim como "cadeira venal" ou "cargo negociado", foi desencadeada para apurar suspeitas de utilização de vantagens indevidas na cooptação de agentes públicos e na formação de alianças relacionadas à disputa pela presidência da Câmara de Várzea Grande. Ao todo, 30 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Cuiabá, Várzea Grande e Chapada dos Guimarães. Entre os investigados estão 13 vereadores várzea-grandenses e dois da Capital.

A dimensão da operação demonstra a mobilização das autoridades para esclarecer suspeitas de corrupção envolvendo agentes públicos. Entretanto, o cumprimento de mandados judiciais não representa denúncia criminal, condenação ou prova definitiva de participação em qualquer irregularidade.

No caso específico de Ilde Taques e Alex Rodrigues, permanece uma questão central: qual foi exatamente a participação de cada parlamentar nos acontecimentos investigados e que relação, se alguma, existe entre o almoço na chácara, a abordagem da Rotam e a suspeita de negociações ilícitas na eleição de Várzea Grande?

O caso também evidencia uma característica da política regional: as disputas municipais frequentemente ultrapassam as fronteiras administrativas das cidades. Vereadores, deputados e lideranças partidárias participam de articulações que envolvem diferentes municípios, formando redes de apoio e alianças que podem influenciar eleições internas.

Essas conexões não são ilegais por natureza. Fazem parte da atividade política. O problema surge quando existem indícios de que o apoio parlamentar possa ter sido condicionado ao recebimento de vantagens indevidas, circunstância que precisa ser demonstrada por provas e não apenas por suspeitas.

Para Ilde Taques, os próximos meses representarão a transição entre a condição de presidente eleito e o exercício efetivo do comando da Câmara. Será também um período em que a investigação poderá produzir novos esclarecimentos, embora não exista prazo público definido para sua conclusão.

O contraste político é significativo. De um lado, um parlamentar que conquistou unanimidade em uma eleição marcada por negociações e rearranjos partidários. De outro, o mesmo vereador tendo que explicar sua participação em acontecimentos que passaram a ser examinados pelas autoridades responsáveis pelo combate à corrupção e ao crime organizado.

No caso de Alex Rodrigues, a questão fundamental é igualmente objetiva: verificar se sua presença no encontro foi apenas circunstancial, como sustenta, ou se existem elementos concretos capazes de justificar alguma responsabilização.

A investigação deverá distinguir a participação individual de cada vereador, sem transformar convivência política, amizade pessoal ou presença em reuniões em presunção de prática criminosa.

O que torna o episódio relevante para a população cuiabana é a importância institucional dos cargos exercidos pelos envolvidos. Os vereadores são responsáveis por representar os cidadãos, fiscalizar a administração municipal e participar de decisões que afetam diretamente a aplicação dos recursos públicos. O presidente da Câmara, por sua vez, terá a responsabilidade adicional de dirigir administrativamente a instituição e conduzir os trabalhos legislativos.

Entre os 27 votos que consagraram Ilde Taques na presidência e os mandados cumpridos pelo Gaeco apenas duas semanas depois, existe uma questão que ultrapassa o destino individual dos parlamentares: a necessidade de assegurar transparência sobre os acontecimentos investigados e preservar a independência das instituições públicas.

O homem que conseguiu unir os 27 vereadores para comandar a Câmara de Cuiabá agora se aproxima da presidência diante de um desafio inesperado: esclarecer sua participação em uma investigação criminal sem que suspeitas sejam confundidas com provas.

A trajetória recente de Ilde reúne, portanto, dois acontecimentos que precisam ser analisados separadamente: uma vitória política documentada pela votação unânime do Legislativo cuiabano e sua inclusão em uma investigação ainda sem conclusão sobre fatos ocorridos em Várzea Grande.

O primeiro episódio já produziu seu resultado institucional. O segundo dependerá das provas reunidas, das conclusões do Ministério Público e das decisões judiciais.

Para Ilde Taques e Alex Rodrigues, permanece assegurado o direito à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. Para a população, permanece o interesse legítimo de conhecer o resultado das investigações.

A pergunta que ficará sobre a mesa até o esclarecimento dos fatos é se o episódio da chácara foi apenas mais uma articulação política comum nos bastidores do poder ou se as provas revelarão condutas que ultrapassaram os limites da legalidade. É essa resposta, e não a especulação, que determinará o verdadeiro alcance da Operação Cathedra Venalis sobre os dois vereadores de Cuiabá.