Polícia
SONHO DA PLÁSTICA VIROU PESADELO: MÉDICO É INDICIADO POR DEFORMIDADES PERMANENTES EM MULHERES E ENTRA NA MIRA DO CRM EM MT
Politec confirma sequelas permanentes em duas pacientes, enquanto uma terceira denúncia relata necrose das aréolas; cirurgião também é investigado por suspeita de omitir rompimento de prótese em documento médico
O que deveria representar a realização de um sonho estético acabou se transformando em um caso policial envolvendo denúncias de deformidades, cicatrizes permanentes, dores persistentes e suspeita de falsidade ideológica. O médico Lucas Danillo Moreira de Jesus foi indiciado pela Polícia Civil de Mato Grosso por lesão corporal de natureza gravíssima e falsidade ideológica após uma investigação sobre cirurgias plásticas realizadas em quatro mulheres no município de Barra do Garças, a cerca de 516 quilômetros de Cuiabá.
O caso ganhou um novo e importante desdobramento nesta terça-feira (20). Além do indiciamento criminal, o Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT) anunciou a abertura de uma sindicância para apurar a conduta profissional do médico, ampliando as investigações para a esfera ética e disciplinar.
A gravidade das denúncias ganhou força com os resultados dos exames realizados pela Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec). Os laudos identificaram sequelas permanentes em duas das quatro pacientes investigadas, incluindo deformidades nas mamas, cicatrizes com comprometimento estético e alterações definitivas nos seios e mamilos.
As mulheres haviam procurado o profissional para procedimentos como redução e levantamento das mamas, colocação ou substituição de próteses de silicone e lipoaspiração. As cirurgias investigadas ocorreram principalmente em 2023.
Entretanto, segundo as denúncias apresentadas à Polícia Civil, os resultados foram acompanhados de complicações que ultrapassaram a insatisfação estética. As pacientes relataram dores persistentes, assimetrias, cicatrizes e deformidades.
Um dos relatos mais graves envolve uma mulher que afirmou ter sofrido necrose das aréolas, condição caracterizada pela morte do tecido, além de dificuldades de cicatrização depois de duas intervenções cirúrgicas realizadas em 2023 e 2024. A ocorrência foi relatada pela paciente e integrou a investigação policial.
Para esclarecer as denúncias, os investigadores analisaram prontuários, documentos hospitalares, fotografias, exames periciais e depoimentos de profissionais envolvidos nos atendimentos.
Em um dos casos, a Politec constatou deformidades e cicatrizes que comprometeram a aparência das mamas. Em outro, os exames apontaram alterações permanentes nas mamas e nos mamilos.
Nas outras duas situações investigadas, os peritos não confirmaram a existência de lesões corporais segundo os critérios técnicos utilizados nos exames.
Mas as suspeitas contra o médico não ficaram restritas às complicações cirúrgicas.
A investigação revelou um segundo ponto considerado relevante pela Polícia Civil: indícios de que informações sobre uma intercorrência ocorrida durante uma cirurgia teriam sido omitidas de documentação médica.
Segundo o inquérito, uma prótese mamária teria se rompido durante um procedimento para retirada do implante. Apesar disso, o episódio não teria sido registrado no relatório cirúrgico correspondente.
A suspeita foi investigada a partir do depoimento da paciente, da prótese apresentada para exame e da documentação médica reunida pelos policiais.
Embora a perícia não tenha conseguido estabelecer uma relação direta entre o rompimento do implante e as dores persistentes relatadas pela mulher, a Polícia Civil entendeu que havia indícios suficientes de omissão de informação relevante para formalizar o indiciamento também por falsidade ideológica.
O inquérito foi conduzido pela 1ª Delegacia de Polícia de Barra do Garças, concluído em 17 de agosto de 2026 e teve seu resultado divulgado nesta terça-feira (20). O relatório final foi encaminhado ao Poder Judiciário.
A repercussão das denúncias levou o CRM-MT a se manifestar oficialmente. O conselho confirmou a abertura de uma sindicância interna destinada a investigar os fatos apresentados pela Polícia Civil, incluindo as complicações pós-operatórias, as sequelas permanentes e as suspeitas relacionadas aos prontuários médicos.
O procedimento tramitará sob sigilo e deverá respeitar o direito à ampla defesa. A apuração administrativa é independente da investigação criminal e ainda não representa a aplicação de qualquer sanção disciplinar ao profissional.
Lucas Danillo Moreira de Jesus nega ter cometido erros médicos.
Durante interrogatório à Polícia Civil, o cirurgião afirmou que não agiu com negligência, imprudência ou imperícia. Segundo sua versão, as complicações relatadas pelas pacientes estariam relacionadas aos riscos inerentes aos procedimentos cirúrgicos, às características individuais de cada organismo e às diferentes respostas do processo de cicatrização.
O médico também declarou ter oferecido acompanhamento pós-operatório e se colocado à disposição para realizar intervenções reparadoras quando necessárias.
Em manifestação divulgada nesta terça-feira, o advogado Paulo Lacerda, que representa o profissional, contestou o indiciamento. A defesa sustenta que dificuldades de cicatrização não comprovam, isoladamente, a ocorrência de erro médico e questiona aspectos da condução da investigação policial.
As alegações defensivas deverão ser avaliadas pelas instâncias competentes.
Com o encerramento do inquérito, o caso segue para análise do Ministério Público e do Poder Judiciário, que deverão examinar os elementos reunidos e as providências cabíveis.
O indiciamento não significa condenação e não estabelece, por si só, a responsabilidade criminal do médico.
Enquanto isso, o caso levanta questionamentos sobre a segurança de procedimentos estéticos, o acompanhamento pós-operatório, a correta documentação de intercorrências cirúrgicas e a proteção dos direitos dos pacientes.
O episódio também chama atenção para a importância de distinguir complicações inerentes a procedimentos médicos de eventuais condutas negligentes, imprudentes ou imperitas, diferenciação que depende de análise técnica e jurídica.
O que começou com a expectativa de melhorar a aparência terminou com denúncias à polícia, sequelas permanentes confirmadas em duas mulheres, um médico formalmente indiciado por dois crimes e uma investigação aberta pelo Conselho Regional de Medicina.
Agora, caberá às autoridades determinar se as complicações relatadas decorreram de riscos cirúrgicos ou de condutas que possam gerar responsabilização criminal e ética.