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CERCO AO COFRE DO COMANDO VERMELHO: “TESOUREIRO” WT E MAIS NOVE VIRAM RÉUS EM ESQUEMA MILIONÁRIO; JUSTIÇA DETERMINOU BLOQUEIO DE R$ 38 MILHÕES EM MT

Operação Replay expõe suspeita de uma engrenagem financeira usada para lavar dinheiro e esconder patrimônio do Comando Vermelho. Entre os dez denunciados estão supostos operadores da facção e familiares. Justiça também manda aprofundar análise de celular

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM PC-MT 20/10/2026
CERCO AO COFRE DO COMANDO VERMELHO: “TESOUREIRO” WT E MAIS NOVE VIRAM RÉUS EM ESQUEMA MILIONÁRIO; JUSTIÇA DETERMINOU BLOQUEIO DE R$ 38 MILHÕES EM MT
A decisão, assinada na segunda-feira (19) pelo juiz Jean Garcia de Freitas Bezerra, da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, transforma WT e outros nove denunciados em réus | PC-MT

O cerco judicial ao dinheiro do Comando Vermelho em Mato Grosso ganhou um novo capítulo. A Justiça aceitou denúncia contra dez pessoas suspeitas de integrar uma estrutura financeira utilizada para movimentar recursos, lavar dinheiro e ocultar patrimônio ligado à organização criminosa. No centro das acusações está Paulo Witer Farias Paelo, conhecido como “WT”, apontado pela Polícia Civil como suposto tesoureiro da facção e um dos personagens investigados na movimentação de milhões de reais.

A decisão, assinada na segunda-feira (19) pelo juiz Jean Garcia de Freitas Bezerra, da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, transforma WT e outros nove denunciados em réus por suspeitas de participação em organização criminosa e lavagem de dinheiro. O caso é um desdobramento da Operação Replay, deflagrada em julho de 2026 para investigar a estrutura econômica que, segundo a Polícia Civil, estaria associada ao funcionamento do Comando Vermelho em território mato-grossense.

A dimensão financeira das suspeitas é um dos pontos centrais da investigação. Durante a Operação Replay, a Justiça determinou o bloqueio de cerca de R$ 38 milhões em bens e ativos financeiros relacionados ao grupo investigado. A medida buscou atingir recursos e patrimônios supostamente vinculados às atividades criminosas, embora o montante autorizado para bloqueio não represente necessariamente valores efetivamente recuperados.

Para os investigadores, a apuração vai além da atuação de integrantes envolvidos diretamente com o tráfico de drogas. A suspeita é de que o Comando Vermelho tenha contado com uma rede de pessoas encarregadas de movimentar dinheiro, administrar recursos e ocultar patrimônio, dificultando a identificação da origem dos valores e de seus possíveis beneficiários.

Além de WT, passaram à condição de réus Emerson Ferreira Lima, conhecido como “Gordão” ou “GD”; Alex Júnior Santos de Alencar, o “Soldado”; Katani Adorno Bocardi, esposa de Emerson; Thawany Nunes Silva de Bulhões, esposa de Paulo Witer; Dayane Karol Moreira da Silva; Brunno Passos da Silva, conhecido como “Brunninho”; Ygor Henrique da Silva Martins; Anderson Alves de Sousa; e Allan Xavier da Silva.

A presença de esposas e outros investigados no processo chama atenção para uma das linhas examinadas pela Polícia Civil: a possível utilização de terceiros para movimentação financeira e ocultação de patrimônio. Entretanto, a responsabilidade criminal de cada denunciado deverá ser demonstrada individualmente, uma vez que vínculos familiares ou pessoais não constituem prova de envolvimento em atividades ilícitas.

A Operação Replay foi deflagrada em julho deste ano pela Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco), da Polícia Civil de Mato Grosso, com mandados cumpridos em Mato Grosso, Santa Catarina e Rio de Janeiro. Inicialmente, 15 pessoas foram apontadas como alvos da ofensiva, que buscava identificar os responsáveis por uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial ligada ao núcleo financeiro do Comando Vermelho.

A investigação procura esclarecer como os recursos teriam circulado, quais pessoas estariam responsáveis pelas operações financeiras e se bens registrados em nome dos investigados eram utilizados para esconder patrimônio supostamente adquirido com dinheiro proveniente de atividades criminosas.

O papel atribuído a WT é considerado relevante pelas autoridades. Segundo a Polícia Civil, ele seria um dos responsáveis pelas finanças da facção, posição que, caso seja comprovada judicialmente, poderá ajudar a esclarecer o funcionamento da estrutura econômica investigada.

O caso também evidencia uma das principais estratégias de enfrentamento ao crime organizado: atingir as estruturas financeiras que, segundo as autoridades, permitem a manutenção das atividades das organizações criminosas.

Mas a decisão judicial não se limitou ao recebimento da denúncia.

O juiz Jean Garcia de Freitas Bezerra determinou que a autoridade policial apresente, no prazo de cinco dias, cópias das mídias e dos relatórios produzidos durante a investigação, especialmente aqueles relacionados à extração de dados de aparelhos celulares.

Também ordenou o encaminhamento de documentos solicitados pelo Ministério Público e a realização das perícias e extrações de informações que ainda estiverem pendentes.

A medida revela a importância atribuída às provas digitais para o esclarecimento dos fatos. Mensagens, registros de comunicação, arquivos e outros dados obtidos legalmente poderão contribuir para identificar eventuais conexões entre os denunciados e as movimentações financeiras investigadas.

Esses materiais também deverão ser submetidos ao contraditório, permitindo que as defesas questionem sua autenticidade, integridade, interpretação e relação com as acusações.

Outro ponto importante da decisão foi o arquivamento das investigações contra sete pessoas, conforme pedido apresentado pelo Ministério Público de Mato Grosso. Entre os beneficiados está Aldemir de Assis Campos, que também teve sua prisão preventiva revogada em razão do encerramento da apuração contra ele.

O arquivamento demonstra que os elementos reunidos não resultaram em acusação criminal contra todos os investigados inicialmente alcançados pelas apurações. A distinção é fundamental para compreender o alcance do processo: dez pessoas responderão à ação penal, enquanto outras sete tiveram as investigações arquivadas.

Com a aceitação da denúncia, o caso entra em uma nova etapa judicial. Caberá ao Ministério Público sustentar as acusações e apresentar os elementos probatórios, enquanto os réus terão oportunidade de exercer integralmente seus direitos de defesa.

A defesa de Paulo Witer informou que não gostaria de se manifestar sobre a decisão. Até as informações disponíveis, não havia manifestação das defesas dos demais denunciados.

O recebimento da denúncia não significa que os acusados tenham sido condenados ou que a existência do suposto esquema financeiro tenha sido definitivamente comprovada pela Justiça.

O que existe, neste momento, é uma acusação formal admitida para processamento judicial, sustentada por elementos que serão examinados durante a instrução criminal.

A ofensiva contra o suposto núcleo financeiro do Comando Vermelho evidencia que o combate às facções em Mato Grosso também envolve a investigação de patrimônio, empresas, contas bancárias e possíveis operadores econômicos.

A questão central agora é determinar se as provas reunidas pela Draco serão suficientes para demonstrar a existência de uma estrutura organizada de lavagem de dinheiro e a participação efetiva de cada um dos dez réus.

Com aproximadamente R$ 38 milhões em bens e ativos financeiros alcançados por uma ordem judicial de bloqueio, dez pessoas transformadas em réus e novas diligências sobre provas digitais, a Operação Replay avança para uma fase decisiva: a análise judicial das acusações contra o suposto núcleo financeiro do Comando Vermelho em Mato Grosso.

O resultado dependerá das provas apresentadas ao longo da ação penal, da atuação do Ministério Público, das manifestações das defesas e das decisões da Justiça, observados o contraditório e a presunção de inocência.