Política
DO PAU DE ARARA AO QUARTO MANDATO: LULA DERROTA FLÁVIO BOLSONARO, SUPERA PRISÕES E ENTRA PARA A HISTÓRIA DO BRASIL
Filho de família pobre de Pernambuco, ex-metalúrgico, líder sindical e preso em dois períodos distintos da história brasileira, Luiz Inácio Lula da Silva conquista aos 80 anos sua quarta eleição presidencial; Nordeste sustenta votação expressiva
A história política do Brasil ganhou mais um capítulo extraordinário neste domingo, 25 de outubro de 2026. Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), derrotou o senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), no segundo turno das eleições presidenciais e conquistou um feito inédito: tornou-se o primeiro brasileiro eleito quatro vezes presidente da República pelo voto direto. A vitória foi confirmada matematicamente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), após uma disputa marcada por polarização intensa, reviravolta na apuração e uma diferença relativamente estreita entre os dois candidatos.
Com 99,77% das urnas apuradas, Lula somava 51,76% dos votos válidos, contra 48,24% de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. O resultado encerra uma eleição na qual o petista havia terminado o primeiro turno atrás do adversário e conseguiu inverter o placar na votação decisiva. Ao conquistar o mandato de 2027 a 2030, Lula amplia uma trajetória presidencial iniciada em 2003, interrompida em 2011 e retomada em 2023.
Por trás dos números está uma trajetória que atravessa mais de oito décadas da história nacional. Lula nasceu em 27 de outubro de 1945, em Pernambuco, no então município de Garanhuns, em uma família de origem humilde. Sétimo de oito filhos, conheceu ainda criança a pobreza e as dificuldades da migração nordestina. Em dezembro de 1952, viajou com a família durante 13 dias em um caminhão conhecido como pau de arara, rumo ao litoral paulista, onde milhares de brasileiros buscavam trabalho e melhores condições de vida.
A infância foi marcada por dificuldades materiais e pela necessidade de trabalhar cedo. Lula foi engraxate, ajudante e operário. Aos 14 anos, iniciou sua trajetória profissional formal e posteriormente concluiu formação de torneiro mecânico pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Nas fábricas do ABC paulista, encontrou o ambiente que transformaria definitivamente sua vida: o movimento sindical.
Em 1975, foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, passando a representar cerca de 100 mil trabalhadores. Durante a ditadura militar, tornou-se uma das principais lideranças das greves que desafiaram a política salarial do regime. Em 1979, aproximadamente 170 mil metalúrgicos participaram de uma paralisação que projetou sua imagem nacionalmente. Em 1980, Lula participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, organização que se tornaria uma das principais forças políticas do país.
Naquele mesmo ano, conheceu a prisão pela primeira vez. Em abril de 1980, durante a ditadura militar, foi detido em decorrência de sua participação nas mobilizações sindicais, sob a legislação de segurança nacional. Permaneceu preso por 31 dias. A prisão do dirigente operário tornou-se um episódio marcante da história das lutas sindicais e da abertura política brasileira.
A transformação do líder sindical em candidato presidencial aconteceu gradualmente. Lula disputou o governo de São Paulo em 1982, participou do movimento Diretas Já e foi eleito deputado federal constituinte em 1986. Em 1989, concorreu pela primeira vez à Presidência da República e foi derrotado por Fernando Collor de Mello no segundo turno. Voltou a perder em 1994 e 1998, nas disputas contra Fernando Henrique Cardoso.
A vitória finalmente chegou em 2002, quando derrotou José Serra e assumiu a Presidência em 1º de janeiro de 2003. Tornou-se um marco político por sua origem operária e por chegar ao comando do país após três derrotas presidenciais. Reeleito em 2006, governou até dezembro de 2010. Seus dois primeiros mandatos ficaram associados à ampliação de programas sociais, à expansão do acesso ao consumo e a períodos de crescimento econômico, mas também foram atravessados por graves denúncias de corrupção, incluindo o escândalo do mensalão, que atingiu dirigentes de seu partido.
A trajetória ganhou outro rumo em 2018. Investigado e condenado nos processos da Operação Lava Jato, Lula foi preso em 7 de abril daquele ano e permaneceu durante 580 dias na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Solto em 8 de novembro de 2019, após decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a execução da pena antes do trânsito em julgado, viu suas condenações relacionadas à Justiça Federal de Curitiba serem anuladas em 2021. O STF reconheceu a incompetência daquele juízo para julgar os casos. A anulação teve fundamento processual e não correspondeu, por si só, a uma sentença absolutória sobre o mérito das acusações.
A prisão e os desdobramentos judiciais aprofundaram uma das maiores divisões políticas do Brasil contemporâneo. Para seus apoiadores, Lula passou a representar uma liderança que enfrentou sucessivas derrotas pessoais, políticas e judiciais até recuperar seus direitos políticos. Para seus adversários, os escândalos de corrupção e as controvérsias de seus governos continuaram sendo argumentos centrais de oposição ao PT. Essa divisão permaneceu no centro da eleição de 2026.
Em 2022, Lula voltou ao Palácio do Planalto ao derrotar Jair Bolsonaro, com 50,90% dos votos válidos, conquistando seu terceiro mandato. Quatro anos depois, enfrentou Flávio Bolsonaro e venceu novamente. A eleição de 2026 também entrou para a história pela disputa envolvendo o funcionamento das urnas: uma decisão do Supremo Tribunal Federal prorrogou até as 19h o horário de votação em todo o país, em meio a reclamações sobre dificuldades de transporte público em diferentes estados.
O MAPA DA VITÓRIA: PIAUÍ, BAHIA E MARANHÃO ENTRE OS DESTAQUES
O resultado eleitoral revelou novamente um país dividido. O Nordeste foi decisivo para a votação de Lula, que liderava nos nove estados da região. O Piauí apareceu como seu principal destaque proporcional, enquanto a Bahia se destacou pelo número absoluto de votos. A região manteve seu papel como principal base territorial do presidente.
Na parcial estadual divulgada pelo TSE por volta das 21h02, os estados em que Lula registrava os maiores percentuais eram:
| Estado | Lula | Flávio Bolsonaro |
|---|---|---|
| Piauí | 75,81% | 24,19% |
| Bahia | 71,15% | 28,85% |
| Maranhão | 69,46% | 30,54% |
| Pernambuco | 69,43% | 30,57% |
| Sergipe | 68,83% | 31,17% |
| Ceará | 68,78% | 31,22% |
| Paraíba | 67,58% | 32,42% |
| Rio Grande do Norte | 65,78% | 34,22% |
| Alagoas | 60,76% | 39,24% |
| Pará | 54,75% | 45,25% |
| Amazonas | 53,79% | 46,21% |
| Amapá | 52,88% | 47,12% |
| Minas Gerais | 50,20% | 49,80% |
Percentuais parciais do segundo turno de 2026, com atualizações estaduais próximas das 21h02 (horário de Brasília). A apuração ainda não estava integralmente concluída.
A leitura dos votos absolutos apresenta outro aspecto relevante. Embora Flávio Bolsonaro liderasse em São Paulo, o estado concentrava a maior quantidade de votos nominais recebidos por Lula, devido ao tamanho de seu eleitorado. Na parcial consultada, o petista somava aproximadamente 10,47 milhões de votos paulistas, seguido por Minas Gerais, com cerca de 5,87 milhões, e Bahia, com aproximadamente 5,55 milhões.
Em Minas Gerais, a disputa estava especialmente apertada: Lula registrava 50,20% dos votos válidos, contra 49,80% de Flávio Bolsonaro na parcial estadual. A pequena diferença demonstrava o peso do eleitorado mineiro em mais uma eleição presidencial polarizada.
MATO GROSSO MANTEVE VANTAGEM EXPRESSIVA PARA FLÁVIO BOLSONARO
Em Mato Grosso, a preferência eleitoral foi diferente do resultado nacional. Na parcial divulgada pelo TSE, Flávio Bolsonaro alcançava 66,06% dos votos válidos, contra 33,94% de Lula. O candidato do PL também liderava em estados como Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.
O mapa eleitoral evidenciou que a vitória nacional não depende de conquistar a maioria dos estados, mas de reunir a maior quantidade de votos válidos no conjunto do país. Lula conseguiu alcançar esse resultado com a vantagem expressiva no Nordeste e votações relevantes em grandes colégios eleitorais, mesmo enfrentando forte resistência em diversas regiões.
QUATRO MANDATOS E UM PAÍS QUE CONTINUA DIVIDIDO
A quarta vitória presidencial coloca Lula em uma posição singular na história política brasileira. O antigo operário que viajou de pau de arara, comandou greves durante a ditadura, fundou um partido, perdeu três disputas presidenciais, governou por oito anos, enfrentou condenações anuladas posteriormente e retornou ao poder agora conquista outro mandato pelo voto popular.
A partir de 1º de janeiro de 2027, o presidente terá diante de si os desafios de governar um país marcado pela polarização, por disputas no Congresso Nacional e por pressões sobre a economia, as contas públicas, a segurança e a qualidade dos serviços públicos.
Lula completa 81 anos na próxima terça-feira, 27 de outubro, apenas dois dias depois da vitória eleitoral. Sua longevidade política contrasta com as mudanças enfrentadas pelo Brasil desde as greves dos metalúrgicos no fim da década de 1970.
A eleição de 2026 entra para a história não apenas pelo quarto mandato de Lula, mas também pela estreita diferença nacional e pela divisão territorial do eleitorado. Do Nordeste aos grandes centros urbanos, do campo às capitais, milhões de brasileiros fizeram escolhas opostas sobre os rumos do país.
O resultado das urnas é definitivo quanto à vitória presidencial, mas o desafio político permanece aberto: transformar uma vitória eleitoral em capacidade de governar uma sociedade profundamente dividida.
Resultado nacional do segundo turno
Eleição presidencial no Brasil, 2026
Em apuração
Segundo turno • 25 de outubro
LULA
PT (em exercício)
51,76%
64,08 mi votos
FLAVIO BOLSONARO
PL
48,24%
59,73 mi votos
Fonte: Associated Press
Atualização: 20:18